Buscar
  • Claudio Pfeil

2. Eduardo Marinho na Casa Vitral (sobre a injustiça com os mais pobres)

E ali fui percebendo que os mais fortes são os que se sentem os mais fracos, e os melhores são os que se sentem os piores, e os que se sentem melhores têm uma conduta pior socialmente falando. Porque eu fiz muitas experiências, muitas, por exemplo, de ir pedir em bairro rico, porque lá tem sobrando, então, vou pedir lá. E ali é o pior lugar pra pedir alguma coisa. o cara te dá um prato de comida e chama a polícia. O cara te dá, num plástico, a comida e o talher, e diz "não precisa devolver não", ele tá com nojo, tem medo de pegar uma doença. É repressão absoluta, você não pode ficar muito tempo num bairro rico porque a polícia vem e manda você embora, isso quando não te bate pra você não voltar mais mesmo. Enquanto se você vai num bairro mais pobre você encontra muito mais solidariedade, é muito mais fácil. Eu fui fazendo experiências e observando a sociedade, e a minha situação precária e frágil, socialmente falando, não me incomodava porque tava me mostrando realidades que eu nunca tinha visto com todo o conhecimento escolarizado que eu tinha, eu tava vendo a sociedade de outra maneira. De repente eu tô numa casa de mendigos lá no centro de Recife, eu me dou conta que eu tô no meio das melhores pessoas, as melhores relações, as relações mais humanas que eu tinha tado, um apoiando o outro. Tinha até um mendigo lá chamado Empresário entendia muito de ervas medicinais e tava sempre curando os outros. De repente eu me dei conta que eu tava no meio das melhores pessoas que eu já tive. E aí eu olhei pra sociedade, essas pessoas tinham o direito constitucional a acessar o conhecimento, o mesmo que eu tive, elas tinham o direito constitucional a ter moradia, elas foram roubadas. E comecei a ver o Estado, a sociedade, como uma entidade criminosa que comete crimes contra a humanidade permanentemente, que privilegia uma classe minoritária que vai ser acuada, vai ficar cheia de medo, para administrar a parada toda. E cria mão de obra braçal porque é disso que vive a sociedade; o trabalho mais importante que tem, mais imprescindível que tem na sociedade é o braçal, um trabalho desqualificado. Se não fosse esse trabalho, ninguém veste uma roupa, porque ele é costurado por gente assim, se não for o trabalho desqualificado, o trabalho braçal, não tem comida. O alimento é plantado e colhido por braçais, ele é transportado por braçais, ele é trazido por braçais, ele é preparado por braçais. As roupas, cada uma é costurada por braçais. O chão, cada parede, tá aí o ajudante de pedreiro, o engenheiro não bota a mão no cimento, não bota a mão no tijolo as ruas, o asfalto, a calçada, em qualquer lugar que você olhar em volta, o que tiver de construído foi mão pobre que fez, os pobres é que fazem tudo. E mais do que isso: se você for pegar a carga tributária, que é o dinheiro que o Estado arrecada pra pagar suas despesas, a massa tributária tá em cima dos produtos de primeira necessidade, ou seja, é a população mais pobre que financia o Estado. A massa dos impostos não são as grandes empresas não, essas têm isenção, elas gastam muito mais propinando campanha eleitoral do que com imposto. Aí a que conclusão eu chego? A galera que constrói tudo, que bota pra funcionar, que faz os reparos, que financia, é roubada nos seus direitos humanos, nos seus direitos constitucionais, é jogada na pobreza, na ignorância, na miséria, na manipulação, na escravidão, na exploração. O sistema de ensino público não tem intenção de instruir o povo, tem intenção de criar gente explorável, escravizável, gente de baixa qualificação, gente de segunda classe. Não posso compactuar com uma sociedade dessa, eu não posso agir de acordo com o que se espera. Se eu perdi o respeito social eu ganhei o meu, respeito próprio, e sem o meu respeito próprio eu não posso viver. Se eu me adaptar à sociedade do jeito que ela é certamente eu vou precisar de antidepressivo, vou entrar em depressão profunda, eu vou precisar de remédio.


1 visualização0 comentário