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  • Claudio Pfeil

A resistência das mulheres negras como origem dos direitos das mulheres

Angela Davis: Mulheres, Raça e Classe (cap 2)


Em nosso encontro passado vimos que, diferentemente das mulheres brancas - estas separadas do mundo do trabalho produtivo, destinadas ao papel de “mãe“ e “esposa”, as mulheres negras, em sua grande maioria, trabalhavam na lavoura à maneira dos homens negros, em regime de opressão tão ou mais cruel, uma vez que submetidas a abusos sexuais. Essa “igualdade negativa”, como diz Angela Davis (AD) – igualdade que emana da opressão de negros e negras, independentemente do gênero – se transforma num igualitarismo que por sua vez serve de base à igualdade de luta e resistência: “As mulheres resistiam e desafiavam a escravidão o tempo todo” (AD). A resistência das mulheres negras, como ferramenta para uma reconfiguração dos parâmetros da condição da mulher, é portanto, uma das grandes ironia do sistema escravagista. Em outras palavras, a luta antiescravagista feminina é a origem dos direitos das mulheres.


1) LEGADO DA ESCRAVIDÃO – Etim. legado: dupla acepção (herança, missão). A resistência das mulheres negras foi uma missão que as mulheres negras escravizadas legaram de forma a constituir uma nova condição para a mulher.


2) RESISTÊNCIA CONTRA ABUSO SEXUAL – Estupro: menos expressão de “impulsos sexuais” do que arma de dominação. Ex. Invasão do Vietnã: estupro encorajado pelo comando militar americano (“revistar” mulheres com o “pênis”); elemento institucionalizado de agressão. A mulher escravizada que se rebelasse ao estupro: açoitada por “insolência”. Caso Anastácia.


3) ESPECTRO DE LUTA MUITO MAIS ABRANGENTE – A luta feminina pela emancipação da mulher negra (luta antiescravagista) se abre para uma luta pela emancipação DA MULHER em geral: abarca todas as mulheres


4) FREDERICK DOUGLASS –Ex-escravo, abolicionista, forte aliado do movimento de mulheres do século XIX. Rotulado como “o homem dos direitos das mulheres”.


5) OBRA DA LITERATURA ABOLICIONISTA MAIS INFLUENTE: A CABANA DO PAI TOMÁS, 1852 – Escrita por uma mulher: Harriet Beecher Stowe, “a mulher que deu início à Guerra Civil” segundo Abraham Lincoln. Imensa repercussão nacional e internacional: atraiu grande público, sobretudo mulheres, em torno da causa abolicionista. Apesar de reconhecer a influência, Angela Davis critica a visão estereotipada da mulher negra escravizada: personagem Eliza. “Surto materno”: exaltação da figura materna, tal como concebida pela sociedade branca e propagada pela ideologia da época, em vez de força de resistência contra a escravidão.


6) “FALHA POR COMPLETO” – Harriet B. Stowe “falha por completo em captar a realidade e sinceridade da resistência das mulheres negras à escravidão”: sua defesa da causa abolicionista tem como base a ideologia cristã (instinto maternal como força divina) e não a luta de classes. “Inúmeros atos de heroísmo realizados por mães escravas foram registrados. Essas mulheres, ao contrário de Eliza, eram levadas a defender seus filhos pela repulsa veemente à escravidão. A origem de sua força não era um poder místico vinculado à maternidade, e sim suas experiências concretas como escravas”. Caso Margaret Garner, a “Medea Moderna”: escravizada fugitiva, quando capturada, matou a própria filha e tentou se matar por repúdio à escravidão - “assim ela nunca saberá o que uma mulher sofre como escrava (...) Irei cantando para a forca em vez de voltar para a escravidão.”


7) RAINHA NZINGA MBANDI: “RAINHA GINGA” – figura emblemática da resistência escrava, comandou um reino com guerreiros poderosos contra a dominação portuguesa: essa memória de resistência escrava permaneceu no Brasil. Trecho do vídeo Sankofa – A Africa que te habita: https://g.co/kgs/bLpyQe


8) PRUDENCE CRANDALL – Mulher branca, professora, prova de coragem, resistência e luta antirracista: desafiou a população branca ao aceitar uma menina negra enfrentando boicote dramático de toda a sociedade. Fundadora da primeira escola para “meninas e mulheres negras de cor nos EUA (1833) - funcionou até tacarem fogo na escola, dois anos depois. Simboliza a aliança entre a já existente luta pela libertação negra e a embrionária batalha pelos direitos das mulheres


9) A BABÁ NEGRA ANGOLANA: PRIMEIRA PEDAGOGA DAS CRIANÇAS BRASILEIRAS – Etim, de “babá”. Todo o vocabulário em torno da mulher negra angolana (maior contingente de mulheres escravizadas no Brasil) é de língua “kikongo” ou “quimbundo”, línguas de Angola. A babá negra angolana, primeira pedagoga das crianças: ensinou as primeiras palavras, as primeiras coisas. Trecho do vídeo Sankofa – A Africa que te habita: https://g.co/kgs/bLpyQe


10) ANGELA DAVIS: POR QUE TANTAS MULHERES SE JUNTARAM AO MOVIMENTO ANTIESCRAVAGISTA? – Posição de Angela Davis: a identificação das mulheres brancas com a luta abolicionista não foi por conta de “instintos maternais” (como subentendido por Harriet Beecher Stowe em A cabana do Pai Tomás) e sim porque viviam suas próprias vidas, seu casamento, como uma espécie de escravidão.



Claudio Pfeil


CASA VIT(R)AL 03/12/2020




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