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  • Claudio Pfeil

A LIÇÃO QUE DEIXAMOS DE APRENDER COM A FRANÇA

Atualizado: 20 de set. de 2020


Li hoje uma postagem no Facebook, de autoria de Alexandre Caldi, lembrando o contexto da eleição presidencial na França, em 2002, que teve como oponentes no segundo turno o então Presidente, Jacques Chirac, herdeiro político do general de Gaulle, e – fato inédito na história francesa - o líder da extrema-direita Jean-Marie Le Pen, o que teria surpreendido até mesmo Nostradamus. A França, não apenas orgulhosa de sua arte e cultura, mas também de sua democracia, cujo marco é a declaração dos direitos do Homem e do Cidadão, de agosto 1789, sofreu um rasgo em sua imagem no espelho das urnas. Volta e meia comento esse episódio, o qual acompanhei de perto, mas ao retomá-lo hoje em minhas lembranças, fiquei desejoso de discorrer sobre ele e trazê-lo até nós, hoje, Brasil, 2020.

Le Pen ascendeu pouco a pouco na cena política francesa com seu discurso verborrágico, caricatural, raso, e acima de tudo, xenófobo e racista: FRENTE NACIONAL é o nome de seu partido, cujo slogan é “A França aos franceses” (“franceses”, leia-se: brancos - preferencialmente com ancestrais gauleses -, católicos) e cuja efígie é Joana d’Arc, de quem, Marine Le Pen, filha de Le Pen e atual líder da extrema direita, sonharia ser um avatar. Quando indagado acerca de suas declarações ultrajantes, Le Pen cinicamente se justificava: "Je dis tout haut ce que les français pensent tout bas" – digo bem alto o que os franceses pensam baixinho. A cada dia, uma frase absurda, negacionista, hedionda, do tipo: “as câmaras de gás foram um detalhe da Segunda Guerra”. A imprensa fazia alarde, a população se horrorizada. E quando mais se alardeava e se horrorizava, mais Le Pen ascendia no pódio presidencial. Alguma semelhança?

Ainda assim, pensava-se que seria impossível que uma criatura tão tosca e ultrajante chegasse ao segundo turno de uma Democracia tão culta e robusta como a francesa. Jacques Chirac, por exemplo - várias vezes Prefeito de Paris e então Presidente da República - era amador de etnologia e profundo conhecedor de “Art Premier” - equivocadamente denominada “Arte Primitiva” -, arte tribal de povos antigos da África, Ásia, Oceania e Américas: a Chirac se deve a idealização do espetacular Museu Quai Branly, inaugurado em 2006, inteiramente consagrado a esse tema. Fora isso, Chirac era extremamente cortês, civilizado, até mesmo ironizado por um certo traço seu aristocrático que parecia emperrá-lo no manejo popular.

Quanto a Le Pen, esperava-se, não passaria de um bufão fadado a fazer estardalhaço com gestos e formulações grotescas, invariavelmente beirando o chulo, sempre de péssimo gosto. Só não se contava com uma coisa: a presença maciça de seus seguidores fanáticos nas urnas e, em contrapartida, o desinteresse crescente do “eleitorado moderado” em votar - na França o voto não é obrigatório. Esses dois fatores fizeram com que o que parecia impossível, acontecesse: pela primeira vez na História da França a extrema direita chegou ao segundo turno. Foi um choque, um trauma para todos os que, cedo ou tarde, se deram conta do perigo que a extrema-direita é: uma ameaça à Democracia.

O que fazer diante desse impasse? Só havia um caminho: uma frente ampla de apoio a Chirac, herdeiro do gaullismo, contra Le Pen. Meu pai dizia: diante do mal maior, cessa o menor. Vi socialistas chorando indo votar em Chirac, conscientes de que escolheram combater o mal maior: a extrema-direita fascista. “Votez escroc, mais pas facho” - votem no escroque, mas não no fascista – esse foi o mote do voto. Resultado: a França disse um NÃO retumbante ao fascismo nas urnas, com 80% de votos. Foi menos uma vitória de Chirac; foi em verdade, um triunfo sobre o fascismo. E a salvaguarda da Democracia.

Aprendemos muitas lições com a História da França. Essa, infelizmente, deixamos escapar: quaisquer que fossem os motivos contra o Haddad e/ou o PT, em hipótese alguma se vota em fascista, tampouco se tergiversa em cima do muro bancando o “isentão”. Acha Haddad um escroque, “PT nunca mais”? Votasse no escroque, mas não em quem golpeia a democracia. O PT, a despeito de duras críticas que lhe possamos fazer, governou o País durante 12 anos e nunca ameaçou a democracia, pelo contrário, fortaleceu as instituições garantindo-lhes sua autonomia. O próprio Sérgio Moro, ex-ministro da justiça de Bolsonaro, reconheceu recentemente que nos governos do PT não houve interferência política alguma na Polícia Federal, diferentemente do atual governo que interfere em tudo com mão de ferro. Acha Haddad escroque? Pois bem, votasse nele e continuasse e lhe fazer oposição livremente. Democracia é isso. É bom ter sempre em mente o que parece óbvio, embora para os milhões que elegeram Bolsonaro – muitos na onda hipócrita do “se não for bom a gente tira” – não pareça tão óbvio assim: fascismo e oposição são incompatíveis, fascismo é antidemocracia. “Gente supostamente esclarecida, deu seu voto para este que é considerado no mundo inteiro um dos políticos mais abjetos do planeta. Outros lavaram as mãos. Tá aí o resultado. Todo dia uma ameaça. Todo dia um deboche. Todo dia o descaso com a vida alheia”, resume Alexandre Caldi o horror a que estamos assistindo.

Aprender a lição francesa de 2002 teria nos poupado entregar o país em 2018 nas mãos de um psicopata, que não somente assassina a democracia como também milhares de vidas humanas – sem falar nos animais, florestas – e de nos tornar, como tenho dito e repetido, detestáveis aos olhos de nós próprios assim como do mundo pensante e civilizado.

Confesso que experimento muita raiva - "justa raiva", como diz Paulo Freire - de constatar como no Brasil deixamos recorrentemente de aprender lições fundamentais, não só com a História de outros países, mas com a nossa própria. Até pouco tempo seria impensável alguém na TV - uma secretária de cultura, muito menos um Presidente - cantarolar saudosamente musiquinha fascista, minimizar a tortura, tripudiar sobre pessoas assassinadas na ditadura militar. “Por que as pessoas ficam oh, oh, oh? Sempre houve tortura, meu Deus do céu...”. Ou seja: banalizou-se o mal, a arbitrariedade, a ignorância, a crueldade. Como não sentir “justa raiva” – a indignação legítima contra a verborragia hedionda e o agir autoritário que desrespeitam, ameaçam, asfixiam nosso ânimo, inteligência, emoção, roubam-nos nossos dias - passado, presente, futuro - nossas vidas?

Tudo isso nos remete à lição política de Kant, há mais de duzentos anos, espécie de arcabouço do que quer que se pense ou faça em democracia: nunca devemos considerar que democracia é algo dado, conquistado, sedimentado uma vez por todas; ela é sempre vulnerável, frágil, sob ameaça, SEMPRE por se realizar, aperfeiçoar, defender, razão pela qual, requer a todo tempo conscientização, vigilância, luta.

O desafio da lição no Brasil de 2020 é esse: canalizar a “justa raiva” em defesa da democracia. Ante a escolha entre um escroque e um fascista, titubear pode ser fatal, como o é Bolsonaro.

Resta-me agradecer a Marcelo Pfeil e Alexandre Caldi pela interlocução, retribuindo a ambos com o texto.

Claudio Pfeil

"Votem no escroque, mas não no fascista", Segundo turno eleição presidencial na França 2002

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