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  • Claudio Pfeil

Adorno & Horkheimer (10) – INDÚSTRIA CULTURAL E MISTIFICAÇÃO DAS MASSAS


A partir da relação contraditória da razão com a dominação explicitada por Nietzsche – em particular, do niilismo que a “civilização industrial” representa, e no qual a humanidade vai se afundando em nome do racionalismo pragmático e mercantil - introduzimo-nos na análise crítica que Adorno e Horkheimer (A&H) fazem dos setores da cultura na sociedade burguesa (cf. “Indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas”, em Dialética do Esclarecimento) procedendo a uma hermenêutica do título: o que significam as expressões “indústria cultural” e “mistificação das massas”, e que relação mantém ente si?


1) INDUSTRIA CULTURAL – Diferenciação de “cultura de massa”: genuína, espontânea (etim. lat. spons = desejo, vontade), “sponte sua” (vontade própria). Indústria cultural: oposto da “sponte sua”; força reativa, nihilismo; padrões que se repetem com a intenção de formar uma estética ou percepção comum voltada ao consumo; domesticação, uniformização


2) UNIFORMIZAÇÃO E DOMESTICAÇÃO – Cultura contemporânea: confere a tudo um ar de semelhança. Ideias chave: sistema, coerente, monopólio, identidade. Domesticação: etim. lat. domus = casa; doméstico X selvagem (Dioniso); domesticar: reagir contra a potência de vida (Nietzsche: forças reativas X forças ativas), subjugar o corpo, emoções, desejos. Quanto mais sofisticação técnica, mais reconversão do corpo em funções; extrapolação do mundo da ciência à vida quotidiana. “Regressão das massas” (A&H) = incapacidade experenciar o imediato com os próprios sentidos (cf. remadores de Odisseu). Exposição Ron Mueck (escultor hiperrealista australiano) no MAM, show Pabblo Vittar: a vivência da obra mediada pela tela do celular. O sistema de produção como formador de uma “sociedade total” (A&H): uma sociedade constituída, não de indivíduos, mas de seres genéricos (etim.), equivalentes (pode-se trocar um pelo outro, não faz diferença: cf. “remédio genérico”); sociedade total = massa.


3) COMPASSO E MELANCOLIA – Sociedade total: indivíduos isolados, atrelados a um compasso - analogia “remadores de Odisseu” e “trabalhador moderno”). Compasso: regra, norma, medida, andamento, cadência, regularidade - as conexões humanas são feitas indiretamente (não de forma interpessoal, intersubjetiva), ditadas pelo sistema de produção, que engloba todas as relações e emoções. Conformismo e impotência: consequência lógica da sociedade industrial. Compasso e melancolia (etim. gr. melankholia): paralelo com “Melancolia” (Dürer); diferença entre luto e melancolia (Freud); paralelo com “Melancolia” Lars Von Trier).


4) CONFORMISMO E IMPOTÊNCIA: EM BENEFÍCIO DE QUÊ E DE QUEM? – Niilismo (Nietzsche): vontade de aniquilar tudo o que é humano, “tudo o que é vivo é oprimido” (A&H). União inteligência-propriedade: concepção de mundo. Adquire o valor de exigência moral (bem X mal): o que é lucrativo é bom, do contrário, é mal. Ética do lucro: cultura rápida, “educação bancária” (Freire): a cultura é um meio, não um fim em si; o fim em si é o lucro (“time is money”). O adestramento à ética do lucro começa muito cedo, nos jogos infantis: Banco Imobiliário, Monopoly, War, Leilão de Arte. A astúcia (razão pragmática) como meio de atingir o objetivo exclusivo: acúmulo de capital e poder.


5) PONTO CRUCIAL: “INDUSTRIA CULTURAL” COMO FRAUDE – A imposição à cultura do mesmo modelo de fabricação em série: a fabricação de revistas, programas de rádio, filmes, música como mercadoria (como p.ex. automóvel). Além disso, a indústria cultural faz as mercadorias culturais serem consumidas e comercializadas por meio de um ardil, fraude (astúcia de Odisseu). Ponto crucial: mistificação (gr. mustikos, mustêrion = cerimônia secreta); mistificar – fazer crer que algo falso é real; mistificação – logro, embuste, fraude.


6) MISTIFICAÇÃO DAS MASSAS – A indústria cultural nos faz acreditar que somos livres, independentes, para escolher revistas, programas de rádio, filmes, músicas, quando, na realidade, consumimos aquilo que ela bem entender. Eis a fraude: não somos sujeitos da cultura, somos objeto dela, mera mercadoria (como qualquer outro produto: filmes, revistas, músicas), “ser-para-Outro” (Hegel). “O consumidor não é soberano como a indústria cultural quer fazer crer, não é seu sujeito, mas o seu objeto” (A&H).


7) HERMENÊUTICA DO TÍTULO – “Indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas”. Hermenêutica: a indústria cultural forma uma sociedade total, uma massa de seres genéricos (uniformização, domesticação, isolamento forçado dos indivíduos), e por meio da razão pragmática (cuja ética exclusiva é o lucro), cria as condições para que a massa seja levada a consumir as mercadorias culturais que a indústria produz, fazendo crer que quem decide o que consome é a massa, quando na verdade quem decide é a indústria cultural – daí seu caráter fraudulento, a “mistificação das massas”.


Claudio Pfeil

CASA VIT(R)AL

01/10/2020


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