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  • Claudio Pfeil

Adorno & Horkheimer (12) – INDÚSTRIA CULTURAL: IDEOLOGIA E STATUS QUO (15-10)


Com base na afirmação de Adorno e Horkmeimer (A&H) - “a indústria cultural mostra a regressão do esclarecimento à ideologia (...), a ideologia se esgota na idolatria” – mostramos como os meios de comunicação, subservientes aos “verdadeiros donos do poder”, além de homogeneizarem os indivíduos, transmitem a ideologia do status quo através de uma cultura do entretenimento.

1) SUBSERVIÊNCIA DA INDUSTRIA CULTURAL: REGRESSÃO À IDEOLOGIA Dependência dos meios de comunicação aos bancos e a setores da indústria ainda muito mais poderosos: “Comparados a esses, os monopólios culturais são fracos e dependentes. Eles têm de se apressar em dar razão aos verdadeiros donos do poder, para que sua esfera na sociedade de massas não seja submetida a uma série de expurgos”. Dar razão: propagar a ideologia da classe dominante. Daí a “regressão da razão à ideologia”. Expurgo: etim. (lat. expurgare = colocar para fora a impureza). A ideologia dominante serve para “legitimar o lixo que [os dirigentes da indústria cultural] propositalmente produzem” (A&H); do contrário, o “lixo” pode ser expurgado

2) PARADOXO DA IDEOLOGIA – Como pensamento dentro do qual todos pensam necessariamente - pensamento social, não individual: “A ideologia é a linguagem da vida real”, Marx e Engels; a ideologia como “linguagem da vida real” tem o poder de “penumbrar, opacizar, ocultar a realidade ao mesmo tempo em que nos torna míopes” (Freire). Daí o paradoxo: a “linguagem da vida real” oculta a própria realidade. Pensar livremente a realidade, exige, antes, se dar conta da ideologia onde o pensamento está mergulhado. “É o que nos adverte de suas manhas, das armadilhas em que nos faz cair”.

3) FILTRO DA INDUSTRIA CULTURAL: OBRIGATÓRIO, OMNIPRESENTE Tendo em vista que vivemos na era da indústria cultural, e que esta reproduz a ideologia dominante, caímos na armadilha já quando nascemos: “O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural” (A&H). Isso abrange todas as relações e emoções isso, extrapola o mundo da ciência, do trabalho e se espalha no dia a dia, no lazer, no descanso. Filtro: obrigatório, onipresente. Daí o caráter violento: “A violência da sociedade industrial instalou-se nos homens de uma vez por todas. Os produtos da indústria cultural podem ter certeza de que até mesmo os mais distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga ninguém, tanto no trabalho quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho” (A&H).

4) INSTRUMENTO DE DOMINAÇÃO: ETHOS CAPITALISTA, STATUS QUO A utilização dos meios de comunicação para fim ideológico: reprodução da “ideologia dominante” (Marx), status quo (literalmente: no estado em que se encontra, ordem existente). Cumprimento e reforço do ethos capitalista: “A ideologia se esgota na idolatria daquilo que existe e do poder pelo qual a técnica é controlada.” (A&H).

5) INDUSTRIA CULTURAL: TRIUNFO DO ENTRETENIMENTO Os meios de comunicação reproduzem a ideologia do status quo através de uma cultura do entretenimento. Etim. entreter: (fr entretenir = “manter entre”). Evolução do sentido: distrair, divertir; por extensão: desviar a atenção, iludir (Métis = ardil, artimanha, astúcia). Manutenção, conservação, status quo. Objetivo do entretenimento: desviar a atenção das massas dos problemas sociais (cf. crise 1930, EUA). Indústria cultural: indústria do entretenimento.

6) ILUSÃO COMO NORMA DA PRODUÇÃO Indústria do entretenimento: fazer com que o espectador perceba a realidade como um prolongamento sem ruptura do filme. A ilusão como norma da produção. “A vida não deve mais, tendencialmente, deixar-se distinguir do filme” (A&H): o cinema molda a realidade, não a problematiza. “É assim precisamente que o filme adestra o espectador entregue a ele para se identificar imediatamente com a realidade" (A&H): atrofia da imaginação e da espontaneidade. Objetivo: produção de um consenso que legitime a sociedade (status quo). Consequência: conformismo, fatalismo, acomodação, paralisia. “Inevitavelmente, cada manifestação da indústria cultural reproduz as pessoas tais como as modelou a indústria em seu todo.” (A&H)

7) “ACLAMAÇÃO DA ORDEM EXISTENTE” Noticiários nos meios de comunicação: celebração quotidiana do vazio, do trivial, do trágico. Objetivo: fazer crer aos cidadãos que sua condição, mesmo ruim, é um mal menor comparada a dos mais desvalidos do que eles. Reprodução do fatalismo: ocultar qualquer perspectiva de transformação da realidade “sempre em favor dos poderosos. ‘É triste, mas, que fazer? A realidade é mesmo essa. Discurso monótono, repetitivo, como a própria existência humana. Numa história assim determinada, as posições rebeldes não têm como tornar-se revolucionárias” (Freire). Daí o caráter antidemocrático da indústria cultural: ela nega à massa subsídios para pensar, produzir opiniões independentes, tornando-se o único referente do pensamento público.

Claudio Pfeil

CASA VIT(R)AL 15/10/2020


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