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Adorno & Horkheimer, (2): A RAZÃO PRAGMÁTICA E A IMBRICAÇÃO DO MITO NA CIÊNCIA



Adorno & Horkheimer, (2): A RAZÃO PRAGMÁTICA E A IMBRICAÇÃO DO MITO NA CIÊNCIA (Dialética do Esclarecimento)

A partir do conceito de “Afklärung” (“Esclarecimento” ligado ao Iluminismo, Kant, sec. XVIII), e da ressignificação de Esclarecimento por Adorno e Horkheimer, como "desencantamento do mundo” (ligado a Max Weber, sec XIX), defrontamos a aporia da “autodestruição do esclarecimento” - primeiro objeto de investigação da “Dialética do Esclarecimento” – no contexto do pós-Segunda Guerra, quando “já se podia enxergar o fim do terror nacional-socialista”: como o Esclarecimento, em uma sociedade herdeira do mesmo, pôde negar a si próprio, se autodestruir, e gerar o nazifascismo, exato oposto do ideal iluminista? Frente a essa aporia – 1) a liberdade é inseparável do esclarecimento; 2) o esclarecimento ocasiona autodestruição e regressão da sociedade à barbárie - Adorno e Horkheimer instruem um processo da razão sobre ela mesma, de modo a repensar totalmente o estatuto da razão ocidental e descobrir como ela se transformou em uma razão cegamente instrumental e autodestrutiva.

1) ORIGEM HISTÓRICA DA RAZÃO PRAGMÁTICA – Etimologia: “pragma”. Galileu (sec XVI) e a matematização da natureza; Francis Bacon (sec XVI), “pai da filosofia experimental”, e a instauração das ciências modernas: “saber é poder” . A partir de então, evolução da razão no sentido de uma abstração cada vez maior, “a serviço de todos os fins da economia burguesa na fábrica e no campo de batalha” (Adorno e Horkheimer).

2) CONSEQUÊNCIA DA RAZÃO PRAGMÁTICA – A substituição do sentido da vida pela fórmula matemática. Crise da ciência = “crise espiritual” (Husserl). A naturalização e desumanização do homem (Hannah Arendt) como preparação do “caminho para o desvario político” (Adorno e Horkheimer). A pretensa “neutralidade do saber”: impossível, hipócrita (Paulo Freire). Os fatos como “pré-formados” histórico-socialmente (Adorno e Horkheimer)

3) ANIMISMO E RACIONALIZAÇÃO – Animismo: a função da antropomorfização (Freud). “O desencantamento do mundo” como destruição do animismo. A matematização da natureza e a submissão de todo ente ao formalismo lógico. O sujeito abstrato, formal, transcendental (Kant): “o eu penso deve acompanhar todas as minhas representações”. O pensamento como maquinaria matemática.

4) CONFIANÇA INABALÁVEL DA RAZÃO PRAGMÁTICA EM DOMINAR O MUNDO – “Saber é poder” (Bacon). O totalitarismo da razão (Adorno e Horkheimer). “A verdade é o todo” (Hegel).

5) “DITADURA” DA CIÊNCIA - A natureza como mero objeto de manipulação, substrato de dominação. A lógica totalitária do “saber é poder”: quanto mais saber = mais técnica = mais poder; quanto mais poder = mais a natureza se separa do homem → natureza = o “outro” a ser dominado” → homem = o dominador. A separação homem/natureza como triunfo do totalitarismo da razão.

6) PARADOXO: A LIQUIDAÇÃO DA CIVILIZAÇÃO – O processo de dominação da natureza pela razão pragmática, o qual representaria o triunfo da civilização, resulta no seu próprio contrário: a liquidação da civilização. O progresso da razão e sua imbricação com o mito: a razão em progresso que se acha livre do mito “regride à mitologia da qual jamais soube escapar”. A absoluta originalidade do paradoxo em Dialética do Esclarecimento e o desafio que defrontamos: como pensar filosoficamente, ao final da Segunda Guerra mundial, o colapso da civilização burguesa como um obscurecimento da razão e uma regressão à mitologia?

7) A SUBSUNÇÃO DO PRÓPRIO PENSAMENTO NO FATO – A coisificação do pensar: a matemática a transformada em instância absoluta, implica a redução da totalidade do mundo natural como o do socioeconômico a fórmulas matemáticas. O pensamento reduzido a uma aparelhagem matemática, um “processo automático e autônomo”, que substitui o pensar. A exigência clássica de pensar o próprio pensamento (filosofia) é banida: o “procedimento eficaz” substitui a “verdade”. O Rapto de Perséfone: imagem mítica e fórmula científica como sendo da mesma espécie.

8) REGRESSÃO DA CIÊNCIA AO MITO – Os “demônios” da mitologia ressurgem sob novas formas: coisificação e alienação do homem, fetiche da mercadoria (etimologia: fr. “fetiche”, port. “feitiço”, lat. “facticius”), radicalização “da angústia mítica”: “nada pode ficar de fora”.

9) ODISSEIA COMO MATRIZ DO PROCESSO CIVILIZATÓRIO – Homero e o mito de Odisseu (Ulisses). A mitologia de Homero (obra literária ocidental mais remota), antes mesmo da Filosofia (pressocráticos), já como movimento de racionalização do divino mediante antropomorfização dos deuses (o que os aproximam dos homens). Nela, Adorno e Horkheimer desvelam a matriz do esclarecimento que originou o processo civilizatório - cultura X natureza, em Freud – oposição que serve de base à divisão do trabalho (intelectual X braçal) e à dominação nas sociedades atuais. “Esse entrelaçamento de mito, dominação e trabalho está conservado em uma das narrativas de Homero” Em suma, na Odisseia, mito e ciência se imbricam: o mito que antropomorfiza a natureza para dela se aproximar, a ciência que objetiva a natureza para ela dominar - ela e aos homens. (...) O que os homens querem aprender da natureza é como empregá-la para dominar completamente a ela e aos homens. Nada mais importa”.

Claudio Pfeil - CASA VIT(R)AL 6/8/2020

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