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  • Claudio Pfeil

Adorno&Horkheimer (4): ODISSEU: PARADIGMA DA DIVISÃO DE TRABALHO E DOMINAÇÃO NA SOCIEDADE INDUSTRIAL

Atualizado: 7 de set. de 2020

A partir das duas TESES CENTRAIS – o mito já é razão, e a razão acaba por reverter ao mito – objetivamos compreender por que a Odisseia de Homero é tida por Adorno e Horkheimer (A&H) “como um dos mais precoces e representativos testemunhos da civilização burguesa ocidental”.


1) DESFUSÃO ESPÍRITO/NATUREZA EM HOMERO – Contrariamente à magia (fusão espírito e natureza), a mitologia de Homero provoca uma desfusão: de um lado, o elemento material (natureza = substrato de dominação), de outro, o espiritual (comando). A antropomorfização dos deuses, que os aproxima dos homens, dá início ao “distanciamento progressivo do sujeito em relação ao objeto” (A&H), cujo preço é “o poder como princípio de todas as relações”. O poder está em quem comanda, e o homem no comando se assemelha a um deus. Homero, antes mesmo da Filosofia, anuncia o “despertar do sujeito” (A&H): "o mito já é razão”.


2) RAZÃO E MITO: MESMA ESPÉCIE – Tanto a narrativa homérica como a razão analítica aplicam sobre a existência um esquema a priori que se repete indefinidamente: “o conhecimento restringe-se à sua repetição, o pensamento transforma-se na mera tautologia” (A&H).


3) TAUTOLOGIA – Etimologia. Lógica formalista, juízo analítico: VERDADE DE RAZÃO e VERDADE DE FATO. Dois casos de tautologia: 1) predicado contido no sujeito; 2) validade independente do conteúdo. A ciência neopositivista: “sistema de signos desligados”, (A&H), pura abstração. “Na urgência da nossa vida essa ciência nada tem a nos dizer. Ela exclui, a golpe de faca, as questões acerca do sentido ou ausência de sentido da existência humana” (Husserl).


4) ORÁCULO KANT – Filosofia do limite. O progresso do pensamento é infinito, mas eternamente limitado: a ciência não conhece o ser, só o fenômeno. O pensamento visa o novo, “e no entanto, não conhece nada de novo, porque repete tão somente o que a razão já colocou no objeto” (A&H). Tanto mito como razão pragmática são tautológicos: tudo o que está por vir, está fadado a ser como é, o novo já aparece como “a priori” - daí “a razão retorna ao mito”.


5) RAZÃO DETERMINISTA: ABDICAÇÃO DA ESPERANÇA, NEGAÇÃO DA HISTÓRIA – O pensamento reduzido à “aparelhagem matemática” (A&H), à “burocratização da mente” (Freire) regride à mitologia (processo cíclico, destino, dominação), abdica da esperança. No mito, como na razão analítica, o futuro é inexorável, mera tautologia, repetição; ambos decretam o imobilismo, a negação da História. “A esperança é um condimento indispensável à experiência histórica. A inexorabilidade do futuro é a negação da história.” (Freire).


6) FUTURO E A HISTÓRIA: ORDEM DA PROBLEMATIZAÇÃO, NÃO DA INEXORABILIDADE – Etim. de inexorável. Onde há inexorabilidade, não há História: “o mundo não é, está sendo” (Freire). A “inexorabilidade” de Troia. Imaginação como faculdade mais importante da razão (Kant). Filosofia, Arte e Cultura como fomentos da imaginação, por isso o autoritarismo quer comandá-las: “burocratização da mente”.


7) DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO: METALINGUAGEM – Duplo sentido: 1) escrita dialética da dialética: “tensão dos dois temperamentos intelectuais que se juntaram na Dialética”; 2) retorno ao mito para tratar do retorno ao mito.


8) O ESCLARECIMENTO E A INEVITÁVEL DOMINAÇÃO – os homens sempre defrontaram a alternativa: submeter-se à natureza ou submeter a natureza ao eu. Optaram pela segunda, em razão do medo, autoconservação, sobrevivência. O Esclarecimento (sentido amplo: pensamento em contínuo progresso), sempre objetivou vencer o medo e se tornar soberano. “Saber é poder” (Bacon). Na sociedade burguesa, industrial, o esclarecimento - reduzido à "maquinaria do pensamento", à razão cegamente pragmatizada - torna a dominação inevitável: “o que os homens querem aprender da natureza é como empregá-la para dominar completamente a ela e aos homens. Nada mais importa” (A&H)


9) CANTO XII: ODISSEU & SEREIAS – Desde Sócrates, passando por Galileu, Bacon, Descartes, Leibniz, Kant, Augusto Comte, aos sistemas racionalistas contemporâneos, a razão se condena, segundo A&H, à sua própria idolatria. Com distanciamento progressivo da razão em relação à natureza – originado em Homero, acentuado cada vez mais a partir do sec XVI/XVII – o pensamento instrumentalizado põe-se a serviço da economia burguesa, voltando-se contra si: “eliminou com seu cautério o último resto de sua própria autoconsciência”. O homem é dominado pelo esclarecimento que ele próprio produz. Odisseu serve de paradigma a essa dialética - uma das bases da divisão do trabalho (intelectual X braçal) e da dominação como conhecemos hoje - e cujos elementos centrais são: 1) todas as relações são relações de poder; 2) dominação, alienação-autoalienação; 3) sacrifício e renúncia. Assim, vemos a dialética entre medo e autoconservação, fruição artística e força de trabalho, dominação e autodomínio, poder e renúncia, a disciplina que se impõe a si e aos outros. Odisseu, ele próprio, se aliena na dominação que exerce sobre os outros.


Claudio Pfeil

CASA VIT(R)AL


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