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  • Claudio Pfeil

Adorno & Horkheimer (5): ASTÚCIA E SOCIEDADE BURGUESA: ODISSEU, O PROTÓTIPO DO INDIVÍDUO BURGUÊS

Atualizado: 7 de set. de 2020

A partir do eixo central em Adorno & Horkheimer (A&H): o itinerário de Odisseu é uma metáfora do itinerário de formação do sujeito racional (daí “mito já é razão”), o qual, na sociedade industrial, tomou forma de racionalismo pragmático – astúcia -, a serviço de “todos os fins da economia burguesa” (A&H) - tanto dominar e explorar, como satisfazer aos empresários –, explicitamos a dialética totalmente original “Odisseu é o protótipo do homem burguês”.


1) “LEI DA FUGA EM HOMERO” – A nuance etimológica de epopeia (gr. “epopoia”) e mito (gr.“muthos”), como pista de compreensão à “lei da fuga em Homero” (A&): a epopeia (narrativa fabricada) como poiesis (Aristóteles: ação na qual o agente e o resultado são separados), nos autoriza a pensar já um desgarramento, uma fuga em Homero do sujeito em relação ao mito, um “distanciamento do sujeito em relação ao objeto” (A&H), origem da racionalidade.


2) ASTÚCIA E SOCIEDADE BURGUESA – A racionalidade burguesa, em sua forma pragmática, é essencialmente astúcia. Etim. astutiae = hábito de iludir, enganar. Astúcia não implica necessariamente desonestidade: o “trompe l’oeil” (Andrea Pozzo, Escher, Zeuxis e Parrásio, Op Art, Street Art). Astúcia (sentido pejorativo): “a lei de Gerson”. Propaganda enganosa. Odisseu como narrador de Odisseia: “astúcia de Homero”. Astúcia X Imperativo Categórico. Astúcia como inteligência prática e seu corolário inevitável: dominação e exploração.


3) “ODISSEU MUITA-ASTÚCIA” – Característica primeira de Odisseu: astúcia (em grego métis, também nome da deusa Métis). A epopeia de Homero sob a égide de duas divindades: Métis e Caos – elemento estrutural à leitura filosófica de Odisseia, assim como à interpretação deste como protótipo da razão burguesa (A&H).


4) ESQUECIMENTO COMO FIGURA DO CAOS: ASTÚCIA DO HERÓI, APOTEOSE DE HOMERO – itinerário de “Odisseu muito-truque”: inteligência prática (astúcia) X Caos (risco permanente de morte, dissolução). A significação profunda de morte nos gregos antigos: retorno ao Caos inicial (cf. a-peiron Anaximandro), perda de identidade, despersonalização. O esquecimento como figura do Caos: Odisseu esquecer quem ele é, significa esquecer o sentido da viagem, da busca de vida boa (filosofia), o sentido da própria existência, não regressar ao “oikos-kosmos” (“casa-cosmo” de Odisseu: Itaca, Penélope, Telêmaco). Sentido de “heroísmo” nos gregos: não se fazer esquecer. Heroísmo como astúcia para escapar do Caos. Reiteração do risco do esquecimento, enquanto figura do Caos, em vários episódios de Odisseia: fúria de Posseidon, ilha dos Lotófagos, etc. A “astúcia” de Homero: a apoteose (deificação, imortalidade) do poeta pela fabricação (poiesis) da palavra – epopeia.


5) ITINERÁRIO DE FORMAÇÃO DO SUJEITO RACIONAL – Itinerário de Odisseu: itinerário de formação do sujeito racional, obrigado a rivalizar com as forças adversas da natureza - exterior e interior a ele - que o ameaçam - ele sempre mais fraco fisicamente do que elas: “com essas forças a natureza se ergue contra nós, majestosa, cruel, implacável, sempre nos recordando nossa fraqueza e desvalia” (Freud) - e contra as quais precisa lutar para permanecer vivo. Nesse embate permanente CAOS X MÉTIS, é a “métis” (astúcia, inteligência prática) que permite a Odisseu vencer todos os obstáculos e regressar à casa.


6) ASTÚCIA COMO VIRTUDE, NÃO A MORAL – A virtude de Odisseu tem como base a astúcia, inteligência prática, não a moral: ele “logra as divindades da natureza, como depois o viajante civilizado logrará os selvagens oferecendo-lhes contas de vidro coloridas em troca de marfim” (A&H).


7) ODISSEU, PROTÓTIPO DO INDIVÍDUO BURGUÊS – Dialética totalmente original. Para os historiadores, em geral, o conceito de indivíduo burguês (etim. burgus = "cidade", em oposição aos habitantes do campo) surge com o fim do feudalismo; para A&H, no entanto: “as linhas da razão, da liberalidade, da civilidade burguesa se estendem incomparavelmente mais longe do que supõem os historiadores”. A astúcia, “como meio de uma troca onde o contrato é respeitado e, no entanto, o parceiro é logrado” remete a um modelo econômico”, do qual Odisseu é o protótipo. Além disso, ao fazer de seu herói um indivíduo isolado, sem determinações sociais – que se organiza somente em função das leis naturais (“estado de natureza”, Hobbes) – Homero prefigura Robinson Crusoé (herói do romance de Daniel Defoe, 1719) – náufrago solitário em sua ilha, necessitando produzir sua sobrevivência com seu trabalho - simbolizando, portanto, da ascensão do individualismo na sociedade moderna, capitalista. Em razão do quê, “a Odisseia já é uma robinsonada” (A&H).


Claudio Pfeil

CASA VIT(R)AL

27/8/2020




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