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Adorno & Horkheimer (6) – O ASTUTO ODISSEU: DOMINADOR-DOMINADO POR SUA PRÓPRIA ASTÚCIA

Por Claudio Pfeil

A partir da visão de Adorno & Horkheimer (A&H), segundo a qual o itinerário de Odisseu é uma metáfora do itinerário de formação do sujeito racional, burguês - este fisicamente mais fraco do que as forças adversas da natureza (exterior e interior a ele) que o ameaçam - e por isso mesmo, com elas se obriga a rivalizar para sobreviver, destrinchamos o entrelaçamento dominação e trabalho na Odisseia de Homero (Canto XII: Odisseu e o canto das Sereias) - matriz da divisão do trabalho na sociedade capitalista –, assim como a dialética que tal divisão encerra.

1) COAÇÃO E RENÚNCIA: BASE DE TODA CULTURA – Freud: o “pendor natural à agressividade”, “tendências destrutivas, antissociais e anticulturais”, fazem com que todo indivíduo seja “virtualmente um inimigo da cultura”, em razão do quê “a civilização tem de ser defendida contra o indivíduo”, “tem de se basear na coação e na renúncia instintual”.

2) FORMAÇÃO DA IDENTIDADE (EU) MEDIANTE NEGAÇÃO DA MULTIPLICIDADE – Duas marcas fundamentais do itinerário de Odisseu: as divindades Caos e Métis. Odisseu: nem evitação do Caos, nem fuga da sedução. Ao contrário: “Eu irei: para mim é imperiosa a necessidade” (Homero). Métis (= prudência, astúcia, inteligência prática): única capaz de enfrentar o Caos e “arrancar um meio de vida à natureza”. O saber-se mais fraco como motor da “imperiosa necessidade” de Odisseu: defrontar o múltiplo (Caos) como hostil, ameaçador, um outro” a ser dominado – assim vai se formando o Eu. “O náufrago trêmulo antecipa o trabalho da bússola” (A&H). O caos como gerador da subjetividade: Hölderlin, Beauvoir, Nietzsche.

3) REDUZIR A NATUREZA AO EU: REDUZIR O OUTRO AO MESMO – Defrontar o múltiplo (Caos) como “outro hostil” a ser dominado: tentativa de transformar a alteridade (alter = outro) em identidade (idem = o mesmo). Astúcia, o “aglutinante” de Odisseu: dá têmpera, coesão ao ego, identidade, sujeito. Crença e trabalho da ciência: vencer a “potência de dissolução” (A&) quando nada mais houver de desconhecido, fora do Eu, do conceito. Ideal do sujeito racional: submissão da pluralidade do mundo à unidade do conceito.

4) ASTÚCIA E RAZÃO PRAGMÁTICA: INEVITÁVEL ELO DOMINAÇÃO-TRABALHO – Astúcia: o outro como meio e não como fim, como coisa e não como pessoa (cf. distinção coisa e pessoa em Kant), exato oposto do imperativo categórico; “meio de uma troca onde tudo se passa corretamente, onde o contrato é respeitado e, no entanto, o parceiro é logrado” (A&H). Razão pragmática: elo inevitável dominação e trabalho. Odisseu e o Canto das Sereias como matriz da divisão do trabalho (dominação, exploração) tal qual conhecemos na sociedade capitalista.

5) O CANTO DAS SEREIAS: SIMBOLOGIA E SUBLIMAÇÃO – Promessa de satisfação irrestrita: princípio do prazer (Freud). Hybris (desmedida) e gozo mortífero. “Renúncia instintual como base da civilização” e “frustração cultural” como dominante dos vínculos sociais (Freud: O mal-estar na civilização). Coação, obstrução dos sentidos: ser obrigado a “remar com todas as forças de seus músculos”, “não dar ouvidos ao chamado sedutor do irrecuperável”, “olhar para a frente e esquecer o que foi posto de lado”, “se encarniçar em sublimar a tendência que impele distração” (A&H).A sublimação é o destino imposto ao instinto pela civilização.” (Freud). “É assim que se tornam práticos” (A&H)

6) ASTÚCIA COMO VINGANÇA: “PERDER-SE PARA SE CONSERVAR” – Estratagema de Odisseu ante o Caos inexoravelmente mais forte: experimentar o canto das sereias, misto de prazer e destruição, sem se deixar aniquilar. Significado de “sobreviver ao Caos”: formar o Eu (este, fisicamente mais fraco do que a natureza) na consciência de si, dar coesão à identidade ante a multiplicidade. A natureza triunfa justamente onde a astúcia vinga: o relato do sobrevivente Odisseu, único mortal a ouvir sem sucumbir, é a prova do Eu racional em formação que vingou. “O recurso do eu para sair vencedor das aventuras: perder-se para se conservar, é a astúcia” (A&H)

7) O ASTUTO ODISSEU: CONTRADIÇÃO – “Odisseu conhece apenas duas possibilidades de escapar” (A&H) ao “prazer mortífero”: uma, que impõe aos trabalhadores, outra, que reserva só para si. Odisseu ouve o canto das sereias, goza dos prazeres da vida à condição que os trabalhadores continuem a obedecê-lo. Ele só vive na dependência de seus comandados. Em virtude do quê, a clivagem “trabalho braçal (comandados)” X “atividade contemplativa (comandante)”, dominado X dominador, comporta uma dialética: ao torna-se dependente daqueles que domina; o astuto Odisseu se autoaliena por força e efeito de sua própria astúcia.

8) ÍTACA – poema de Constantinos Kavafis: maior poeta em língua grega moderna.

Claudio Pfeil

CASA VIT(R)AL - 3/9/2020



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