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  • Claudio Pfeil

Adorno & Horkheimer (7) – O FELIZ-MALOGRADO ENCONTRO DE ODISSEU, E O DESTINO LÓGICO DAS SEREIAS


Jean Auguste Ingres, "Oeudipe et le Sphinx" 1808

A partir do estratagema de Odisseu no encontro com as Sereias, e da contradição dele decorrente, estabelecemos em que medida foi bem ou malsucedido, e qual teria sido o destino “lógico” das Sereias depois da passagem do barco, estritamente do ponto de vista do estatuto das figuras míticas.

1) FASCINAÇÃO DAS SEREIAS – Canto das sereias: promessa de gozo absoluto (cf. Freud, Princípio do Prazer), saber absoluto. Hybris (desmedida): maneira mais tentadora de viver. Orgia, loucura, bacanal dionisíaco. Remissão do sujeito a um tempo anterior à lei, à civilização: “Idade de Ouro” (Freud). “Toda a sociedade está voltada para vestir a nudez do ser humano. A natureza desconhece nudez.” (Bonder). Repressão do corpo: o preço da civilização e a condição do prazer (Freud).

2) NUDEZ E CANIBALISMO (SEC XVI) – Thevet e Montaigne: concepções opostas. Thevet: descrição do índio em oposição ao cristão; de imediato, oposição natureza X cultura, barbárie X civilização. Montaigne: a barbárie do lado daqueles que se julgam civilizados (alusão à Inquisição, tortura praticadas pelos cristãos): “cada um chama de barbárie o que não é seu costume”.

3) TENTAÇÃO DE ODISSEU: – Ver, experimentar, saber: curiosidade. “A pedra fundamental é a curiosidade” (Freire). “Pensar é um dos atos mais eróticos” (Nélida Piñon). Tomar distância em relação ao objeto, dar têmpera ao ego (sujeito racional); formação dialética do Eu: ao conhecer o objeto eu me re-conheço como sujeito do conhecimento. “O ser e o Nada” (Sartre), “transitividade da consciência” (Freire). Curiosidade como alicerce da civilização: “O náufrago trêmulo antecipa o trabalho da bússola” (A&H)

4) SE PERDER PARA SE CONSERVAR – Odisseu, ao se inclinar ao canto das sereias, neutraliza o gozo mortífero, escapa da fatalidade; na prática, porém, permanece atado, imóvel. Civilização e frustração: “O mal estar na civilização” (Freud). Relações sociais: relações de poder que implicam obediência e trabalho, sacrifício e renúncia. “O homem é um déspota por natureza” (Dostoiévski)

5) SUBSTITUIBILIDADE: MEDIDA DA DOMINAÇÃO – o mais poderoso é aquele que se faz substituir na maioria das funções; Odisseu se faz substituir no trabalho braçal pelos remadores para poder contemplar o canto. Já ocorre uma divisão: trabalho braçal (dominados) / atividade espiritual (dominadores), como na sociedade burguesa.

6) DIALÉTICA DO SENHOR E DO ESCRAVO: HEGEL – Conceito chave: reconhecimento - o “ser para si” depende do “ser para o outro”. Essencialidade do diálogo, convívio intersubjetivo, processo histórico. “Sujeito dialógico” (Freire), “comunicacional” (Habermas). Paralelo Hegel/Arendt: não existe sujeito, direito natural; na ausência de um Estado que reconheça e defenda o direito humano, é a “calamidade dos que não têm direitos humanos” (Arendt). O “animal político” (Aristóteles). “Não há posição fora do campo da linguagem e da política” (Butler). Cerne do reconhecimento: o desejo - “o desejo é o desejo do outro” (retomado por Lacan). “A intuição genial de Hegel é a de fazer-me dependente do outro em meu ser. É no meu coração que o outro me penetra” (Sartre). Reconhecimento: chave do ser de cada um; luta pelo reconhecimento: questão de vida ou morte. Degrada tanto o dominado quanto o dominador: este se separa da experiência sensível para se endurecer na função de dominar.

7) A MALDIÇÃO DO PROGRESSO IRREFREÁVEL: A IRREFREÁVEL REGRESSÃO – A divisão trabalho servil/intelecto autocrático, cuja dominação é facilitada pela técnica, empobrecem tanto a experiência sensível como o pensamento, causando uma involução: os “modos de trabalho racionalizados, a eliminação das qualidades e sua conversão em funções transferem-se da ciência para o mundo da experiência dos povos e tende a assemelhá-lo de novo ao mundo dos anfíbios” (A&H) “A maldição do progresso irrefreável é a irrefreável regressão” (A&H)

8) “BRECHA NO CONTRATO” – Na astúcia “o contrato é respeitado e, no entanto, o parceiro é logrado” (A&H). Odisseu descobre uma brecha, a qual o faz escapar às normas, mesmo as cumprindo: o contrato não prevê se o navegante deve ouvir a canção amarrado ou não.

9) ENCONTRO FELIZ OU MALOGRADO? – Os dois: dialética. Feliz: Odisseu se inclina à canção do prazer, ouve o canto, se entrega desesperadamente ao desejo das sereias sem se perder (ele está atado). Malogrado: ele frustra o seu prazer (ele quer desesperadamente ir ter com as sereias, mas não pode) da mesma forma que ele frustra a morte. Frustrar o desejo e a morte = entrar na civilização: “Odisseia como um dos mais precoces e representativos testemunhos da civilização burguesa ocidental. No centro estão os conceitos de sacrifício e renúncia” (A&H)

10) DESTINO “LÓGICO” DAS SEREIAS – A&H imaginam um destino semelhante da Esfinge depois que Édipo decifra o enigma: “deveria ter sido sua última hora”. Ao frustrar as sereias, Odisseu neutraliza o poder do mito: elas perdem seu estatuto baseado na "inexorabilidade do destino". O mito já é razão.

Claudio Pfeil

CASA VIT(R)AL 10/9/2020



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