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  • Claudio Pfeil

Adorno & Horkheimer (9) – ÊXTASE DIONISÍACO E “GRANDE ESTILO” DE NIETZSCHE VERSUS NIHILISMO DA RAZÃO


Êxtase de Santa Teresa, Bernini, Roma, séc. XVII

A partir da alteridade radical que Dioniso encarna, interpretamos o “êxtase dionisíaco” em três obras de arte – “Júpiter e Sêmele” (G. Moreau), “Êxtase de Santa Teresa” (Bernini), “À flor da pele (M. Nascimento & C. Buarque). Construímos uma ponte entre a presença de Dioniso no Olimpo e o “grande estilo” em Nietzsche - reconhecer Dioniso em nós, ao invés de tentar livrar-se dele -, e compreendemos que a negação sistemática do “êxtase” em nome do racionalismo – em seu traço pragmático, utilitário e mercantilista - faz da razão não apenas um meio de conservação e sobrevivência, mas acima de tudo, um instrumento de dominação. Assim, pela via do êxtase de Dioniso, chegamos à relação contraditória da razão com a dominação explicitada Nietzsche, pressagiando a “indústria cultural”.

1) ÊXTASE – etim. gr. “ékstasis” (“movimento para fora”). Arrebatamento; se expressa através do corpo; sensorial, não racional; involuntário; Avassalamento (dupla acepção): submissão, destruição. O “ser para si” transforma-se em “ser para o outro” (Hegel): “Vivo sem viver em mim, vivo já fora de mim, vivo no Senhor, que me quis para si” (Santa Teresa de Jesus sec XVI)

2) SIMBOLOGIA DO ÊXTASE DIONISÍACO – “Júpiter e Sêmele” (G. Moreau, 1894). Ambiguidade: regeneração, purificação; dor, destruição. Dioniso: exaltação da vida como devir constante, impermanência (Heráclito), instabilidade: “arquiteturas aéreas, colossais, sem base nem cume” (Moreau), “construção sempre temporária” (Freud), “inacabamento do ser” (Freire). Impulso que impele ao desconhecido, à mudança, a ir além do que somos: curiosidade, “pedra fundamental do ser humano” (Freire). Inspiração criadora, teatro, tragédia (etim. tragoidia). Odisseu dionisíaco: não evita o Caos, não resiste à sedução; “disponibilidade à vida e seus contratempos” (Freire). “Base trágica da vida”. Deus Pan: flauta, “pânico”. A impossível sustentação do gozo absoluto: “Sêmele, penetrada pelos eflúvios divinos, regenerada, purificada pela sagração, morre fulminada e com ela, o gênio do amor terrestre, o gênio com pés de bode” (Moreau)

3) PARALELO SÊMELE / ODISSEU – A aparição de Zeus está para Sêmele, como o canto da Sereia está para Odisseu. Diferença decisiva: astúcia. Odisseu não “coloca o gozo à frente da cautela” (Freud), limita o dionisíaco: a astúcia o faz suportar o que nenhum humano é capaz (gozo absoluto). Ao contrário de Sêmele: se aniquila pela provação do êxtase divino, comparado “à expressão mais suntuosamente imaginável de um orgasmo”.

4) “ÊXTASE DE SANTA TERESA” – Bernini, sec XVII; cartas de Teresa d’Ávila (Santa Teresa de Jesus), sec XVI: erotismo extremo. “Princípio do prazer” (Freud), “imperativo do gozo” (Lacan), “amor inibido na meta” (Freud) - muito vinculado à religião. “Que ela goza, Santa Teresa, não há nenhuma dúvida!” (Lacan). A “exata verdade” expressa pelo corpo: “O que eu sei muito bem, é que eu digo a exata verdade” (Santa Teresa de Jesus).

5) O QUE SERÁ - À FLOR DA PELE – A reiteração do enigma: “o que será que será?” – pergunta que só se responde pelos efeitos no corpo: saber corporal (sintoma); saber não conceitual; inconsciente. “Não tem medida, remédio, receita; descanso, cansaço, nem limite vergonha, governo, nem juízo”. Dioniso: desejo e luta em ser reconhecido pelo que ele é e não se pode saber: corporal, irracional. Reivindicação do inconsciente como consubstancial à natureza humana. Razão pela qual: “Zeus tinha que ‘inventar’ Dioniso e lhe dar um lugar de destaque dentre os deuses” porque a verdadeira vida é Cosmos e Caos reunidos” (Luc Ferry)

6) “GRANDE ESTILO”, NIETZSCHE – Reconhecer Dioniso em nós, integrar o inimigo (“espiritualizar”) para se tornar mais forte, maior, “ser-mais” (Freire); reunir todas as forças em nós: “ativas” (dionisíacas) e “reativas” (antidionisíacas), estas sob comando daquelas. A realidade é dialética: “Um e outro”, “Um no Outro

7) RACIONALISMO E NEGAÇÃO DA VIDA: NIHILISMO – Em nome da razão, “tudo que é vivo é oprimido” (A&H). Valores e ideais do ocidente, de Sócrates e Platão aos nossos dias: negam vida, a “vontade de potência”. Racionalismo = Nihilismo (etim. lat. nihil = nada) = vontade de aniquilar tudo o que é humano. Razão: não só um meio de conservação, sobrevivência, mas sobretudo um instrumento de dominação, uniformização. “Civilização da moral”, “moral do ressentimento” (re-sentimento: re = “para trás”); ideal de forças reativas (reprimem o impulso de vida). Sintoma de uma doença cuja causa é uma “racionalidade a qualquer preço”. A humanidade foi se afundando nesse nihiismo, basicamente sob três formas: 1) platonismo, cristianismo: “Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este”; 2) metafísica, ciência: dissolução da vida material no conceito ; 3) “civilização industrial”: domesticação, uniformização, domesticação, uniformização; torna tudo equivalente (mercadoria, sujeito à troca), faz desaparecer as qualidades, abole as diferenças em benefício do pragmatismo, utilidade, interesse, lucro. “O trabalho é um meio, não um fim em si”. Leitura de “Gaia Ciência” (aforismo 42 - Trabalho e tédio). Paralelo com A&H: “A cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança”; “A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo”.

Claudio Pfeil

CASA VIT(R)AL 24/9/2020



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