Buscar
  • Claudio Pfeil

AUGURI

Auguri é uma palavra italiana que eu adoro. Acho o som engraçado, divertido, lúdico: tem “guri”, criança. É uma saudação que se usa para se desejar parabéns, boa sorte, sucesso, melhoras, Feliz Natal, Feliz Ano Novo. É uma espécie de senha para a felicidade.


Fui procurar a etimologia. Do latim “augurium”, “augere”, que significa aumentar, acrescer, favorecer. Faz-me lembrar o conatus de Espinosa: vai ver daí vem meu gostar de “auguri”. Em português tem “agouro”, predição a respeito do futuro, assim como “augúrio” e “áugure”, ambos sinônimos de “auguri”. Os áugures (“auguri”) eram sacerdotes da Roma Antiga que interpretavam o voo dos pássaros, este portador de um desígnio, vontade divina. Nada de relevante se decidia sem antes consultar os áugures, que compunham um verdadeiro colegiado: se o “auguri” não fosse favorável, um áugure tinha o poder de impedir ou adiar, por exemplo, a execução pública de um condenado. Com augúrio não se brinca, é coisa séria.


Venho portanto, à maneira dos áugures, desejar auguri todos a vocês, “tanti auguri” como dizem os italianos: prosperidade na vida de cada um: saúde, alegria, amor, dinheiro, prazer, conhecimento, amizade, bons encontros, reencontros, tudo o que aumenta a potência de viver, favorece o conatus.


Mas discípulo de Aristóteles que sou - e também de Sartre, Hannah Arendt – aprendi que não dá para acrescer o “conatus”, sentir-se mais potente, alegre, desejante, exclusivamente em meu próprio mundinho, coçando o meu umbigo, usufruindo de meus bens particulares, prazeres secretos: a gente só se realiza como humano no espaço público, em trabalho e comunhão com/e para o(s) outro(s), em vista de um bem comum. Fora do espaço comum – pólis - não somos humanos. Aristotelicamente falando: é preciso deixar de ser "idiótis" para se tornar “politikon”.


Nossa sociedade fez uma escolha para lá de funesta, dramática, sombria, o pior dos voos de pássaro: elegeu um fascista. Não dá para tergiversar: é preciso encarar isso de frente, reconhecer nossa responsabilidade, isto é, assumir que erramos, reconhecer o que negligenciamos contra a democracia, e a partir disso, o que devemos fazer para vencer o fascismo. Analisar nosso trajeto, os passos que demos até o ponto em que nos encontramos, redefinir o rumo. Só assim poderemos vislumbrar um verdadeiro “augurium” em nossa(s) vida(s), aumento, acréscimo, favorecimento de forças criativas. De modo muito simples: reconquistar e garantir a cada um a liberdade de pensar, expressar, existir, no respeito a regras mínimas de convivialidade e civilidade. Foi exatamente isso o que se perdeu, mas que, através da reflexão e da ação política, podemos e devemos recuperar, não de modo culposo, raivoso, e sim consciente, responsável.


Reitero então, de maneira mais explícita, o voto que lhes fiz acima: quero, à véspera de 2020 e à maneira dos áugures, desejar “auguri” a todos vocês, abarcando, feito abraço de “mamma italiana”, a orientação do voo de cada um na constelação do céu anil, “o lábaro que ostentas estrelado”. São nossas vidas - nosso destino e o de nosso País - que estão em jogo: nada mais, nada menos do que isso. Repito: com augúrio não se brinca, é coisa séria.


Auguri! Auguri!


Claudio Pfeil



123 visualizações6 comentários