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  • Claudio Pfeil

O QUE PODEMOS APRENDER COM BACURAU?

[AVISO: este artigo contém revelações sobre o enredo]

A cultura, diz Freud, é um processo a serviços de Eros, pulsão sexual no sentido da preservação da vida: é o que reúne pessoas, famílias, povos, nações numa grande unidade chamada humanidade. Juntamente com essa tendência, há uma outra contrária no sentido da desagregação do vivente, Tânatos, pulsão de morte. Essas duas forças conjuntas e opostas, são originais e autônomas no humano. É o que leva Freud a considerar essa luta "a essência da espécie humana e motor da cultura, o combate de gigantes que nossas babás querem amortecer com a canção de ninar falando do céu".


Bacurau, filme de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, começa justamente com uma canção falando do céu: “eu vou fazer uma canção de amor, para gravar num disco voador, uma canção dizendo tudo a ela, que ainda estou sozinho, apaixonado, para lançar no espaço sideral, minha paixão há de brilhar na noite, no céu de uma cidade do interior, como um objeto não identificado”. A voz é de Gal Costa, a música, de Caetano Veloso. E a visão inicial do filme é a de uma parte da Terra, onde se reconhece o território brasileiro, e a de um satélite artificial se aproximando do planeta como que a simbolizar nossa pertença à esfera cultural de Eros: a humanidade. Bacurau é portanto um mergulho na esfera de pertença do que é propriamente humano, e mais ainda, nos limites que nos ameaçam sair dela. É um filme sobre civilização e barbárie, sobre os perigos que nos ameaçam como humanos no Brasil de hoje. Dramático, violento, desestabilizador. Um sentimento bruto, difuso, “não identificado” como o título da canção.


Aterrissamos no sertão de Pernambuco. Teresa e o motorista ziguezagueiam em alta velocidade num caminhão-pipa, desviando dos buracos, de um homem morto na estrada, da carga de um caminhão tombada na estrada: são caixões. Isso mesmo: caixões. Bizarro. Uma placa adiante anuncia que Bacurau está perto, e adverte: “Se for, vá na paz”. Mais tarde sabe-se que Bacurau é nome de um pássaro noturno, e que nem todos que para lá vão, vão na paz, muito pelo contrário. Caixões na estrada. Tânatos, na mitologia grega, é filho da noite, por sua vez nascida do caos. Bacurau, pássaro na noite, vive em agonia: falta d’água. Motivo? Uma represa impede que a água chegue ao vilarejo e proíbe que moradores da região se abasteçam nela. A essa falta agonizante cavam-se outras tantas, resultados da falta de política no sentido aristotélico, a única digna desse nome, a que visa o bem comum. Assim Bacurau é o pássaro agonizante por falta d’água, saúde, educação, alimento. Bacurau é a terra do corte, do sangue. Bacurau é o Brasil: Eros e Tânatos, em vez de Ordem e Progresso.


Terra do cangaço, sertanejo, repentista, jagunços, prostitutas, milícias, beatos, carolas, romarias, santos, crápulas, políticos. Estes que só mostram a cara de pau em época de eleição, carro de som, conversa fiada, sorriso babão: vamos nos unir, conversar, resolver os problemas. Olhem só o que eu trouxe: remédios, alimentos, livros para a biblioteca da escola. Remédios tarja preta para dopar a população, alimentos com prazo de validade vencidos, livros velhos despejados no chão feito caixões na estrada. Terra de ontem, hoje. Em que tempo estamos? Não se sabe muito bem. Em algum momento do filme aparece: daqui a algum tempo. A esse arcaísmo social insistente, sempre atual, misturam-se elementos tecnológicos: drones em forma de disco voador, câmeras de vigilância de altíssima resolução, telas de Led, drones, celulares, motos, carros, armas possantes com silenciador. Falta o básico, abunda o acessório: terra do corte, do sangue. Bacurau é o nosso futuro onde nossos arcaísmos gozarão da mais sangrenta eternidade?


O filme mistura realismo, realismo fantástico, hiper-realismo. Faz lembrar o universo apocalíptico de Glauber Rocha - Bacurau em Transe – com sua crítica social ferrenha, revolucionária na forma como no conteúdo. Mas Bacurau vai além do pássaro agonizante rural brasileiro, ele é explosão do inconsciente violento tanto do homem do sertão como o das grandes cidades e periferias do Brasil. O que acontece em Bacurau acontece no Brasil inteiro: é o acontecimento brasileiro mais atual e ubíquo. As cabeças cortadas no sertão de Pernambuco se equilibram com as execuções públicas no Anhangabaú, exibidas na TV. A mídia se encarrega de especularizar a barbárie a ponto de não mais concebermos uma sem a outra.


Chegada a Bacurau. Teresa caminha rumo ao velório da avó nonagenária, Carmelita, a matriarca do vilarejo, este reunido ao seu redor em louvação, lenços brancos em revoada de adeus: uma das cenas mais bonitas e significativas da força agregadora de Eros. Essa força vai se revelar ao longo do filme através de lideranças comunitárias essenciais à vida de Bacurau: a médica Domingas (Sônia Braga), o professor Plínio (Wilson Rabelo), o matador Acácio (Thomas Aquino), o transexual Lunga (Silvero Pereira), protetores espirituais. Há liderança democrática, e portanto, tolerância em Bacurau.


São essas lideranças - lideranças democráticas - que serão decisivas no combate de gigantes de que nos fala Freud, contra as forças destrutivas de Tânatos que ameaçam a coletividade: humanos que se reconhecem e se respeitam mutuamente como membros de uma comunidade, tornam-se alvo de caça em um jogo sádico de forasteiros estrangeiros que disputam pontos em exterminá-los, não os reconhecendo como humanos. Para isso, contam com a colaboração de um casal forasteiro do sul do Brasil, que se acha superior aos conterrâneos sertanejos. “O Sul é muito diferente, é rico, temos imigração italiana e alemã”, diz o rapaz, que possui crachá de assessor de Procurador Federal. Em resumo, para os forasteiros estrangeiros e brasileiros, os moradores de Bacurau e da região, não são propriamente humanos, portanto, sem direito à terra, à vida, a lugar no mapa. São supérfluos, como diz Hannah Arendt, com quem aprendemos que um lar só é um lar se for reconhecido pelo vizinho, e que considerar alguém supérfluo é o primeiro passo para excluí-lo ou exterminá-lo.


O jogo do extermínio inicia-se de forma simbólica logo após a morte da matriarca: os habitantes descobrem que Bacurau não consta mais em nenhum mapa. Se é o simbólico que dá lugar às coisas, uma cidade apagada do mapa é como se desexistisse sem nunca ter tido lugar. Ao mesmo tempo, moradores da região são assassinados com motivo e autoria, como diz a música de Caetano, não identificados. Corte de energia elétrica e sinal de internet isolam, acuam o pássaro da noite. A partir daí, a caça aos humanos-não-humanos se alastra como “prática legal”, dentro da perfeita normalidade, exatamente como fazem políticos milicianos.


A questão que Bacurau coloca é: o que fazer quando se é alvo dessa prática institucionalizada de extermínio? A quem recorrer quando o próprio Estado - que tem como dever garantir a segurança e bem-estar de seus cidadãos - é governado por quem justamente promove o neoliberalismo mafioso, acoberta o narcotráfico, associa-se a milicianos, assassinos? É aí que o sertão, cidades e periferias fundem-se numa mesma Bacurau, cuja “cura” contra o ódio de que é alvo está no interior do próprio nome, da própria cultura, Lampião e Maria Bonita recrutados em socorro: é matar ou morrer. Hobbes ressurge das cinzas do pássaro da noite: o homem é o lobo do homem. Eros e Tânatos, opressor e oprimido se alternam. Estupefacientes, psicotrópicos, sadismo, insanidade: por sua vez, a coletividade marcada de morte chama para si o pendor agressivo que lhe é próprio como prática legal de poder e resistência. Salve-se quem puder.


Quem nasce em Bacurau é o quê? Gente.


Talvez seja isso o que podemos aprender com Bacurau para acabar de vez com o jogo político e “extrapolítico” de extermínio generalizado. E inventar outro País. De liderança e tolerância, não de ganância e matança. De sujeitos identificados à vida, não de corpos mortos não identificados senão como dejetos. É o que faz de Bacurau monumental.


Claudio Pfeil

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