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  • Claudio Pfeil

CARTA A UM AMIGO

Caro amigo,


Esse papo "não tinha outra opção" é cinismo, má-fé, no sentido sartriano da palavra: tinha sim. No primeiro turno havia outros candidatos e você escolheu votar nele desde então. Bolsonaro, HOJE, NÃO É é diferente do que SEMPRE foi: débil, vulgar, violento, preconceituoso, inapto. Há 3 décadas como deputado medíocre (aprovou apenas 2 projetos! Repito: 2 projetos em 30 anos), se refestela no dinheiro público e nas milícias, vociferando aos 4 ventos seu apoio a torturadores e grupos de extermínio, além do ódio a gays, pretos, minorias em geral. Muitos, como você, preferiram pagar o preço dessa desgraça simplesmente para afastar o PT do poder e manter Lula preso. Não vou entrar nessa discussão, cada um tem seus motivos, motores, promotores. O que sei, é que deram um cheque em branco a quem, sob pretexto de uma facada duvidosa, não apresentou nenhum projeto de governo (em vez disso, pautou-se no moralismo mais barato e nas fakenews), recusando-se a participar de quaisquer debates como se não fosse candidato a nada e nada tivesse de concreto a propor à população. E de fato não tinha.


O resultado é o que estamos assistindo agora, num misto de pavor e perplexidade. Como um sujeito moralmente vexaminoso e baixo, com qualidades cognitivas e comportamentais tão medíocres, recebeu o aval cego de 54 milhões? A história dará todas as letras a isso. No momento não importa tanto, talvez nada.


Importa sim AGORA, qualquer que tenha sido o seu, o meu, o voto do vizinho, constatarmos todos o estrago feito, lutar para sair dessa atmosfera asfixiante, brochante, imbecilizante, que rouba nosso tempo, energia, vidas. Ainda que Bolsonaro caia - o que faço votos aconteça o mais rápido possível - os danos morais, mentais e materiais exorbitam qualquer espírito racional, dentro e fora do País. Mas, como disse há algum tempo, haveremos de sobreviver lindamente e reconstruir um País bom de viver.


Meu recado é esse: se você acha que não teve opção no passado, neste momento em que me lê, tem. Repito: se você julga que não tinha opção antes, agora tem. E ouça-me de coração: a opção de quem minimamente ama a civilidade - a coexistência respeitosa de pretos, brancos, marrons, vermelhos, cinzas, amarelos, índios, plantas e animais, e todas as diferenças a condição de não serem excludentes entre si - é a de tirar o fascista Bolsonaro do cargo supremo da Nação, e aclarar na justiça todas as sombras criminosas que recaem sobre ele e sua família.


Vamos vencer. O Brasil pode ser um lugar maravilhoso de viver. Mas é preciso escolher o que se quer construir como País. E para tanto, ousemos fazer uso do nosso entendimento como diz Kant. É difícil, de certo, mas menos arriscado do que dar cheque em branco a quem não respeita ninguém, sequer a si mesmo como humano.


Continuo a amá-lo, embora meu afeto por você seja mais triste ou menos alegre. Mas afetos não são pedras: são o sabor da vida que se cria e recria através dos encontros. E haveremos, assim esperanço, de recriar o nosso quem sabe talvez com a olhar de Aristóteles, a amizade de Espinoza, a paixão de Kierkegaard, a força de Nietzsche. E Sartre, claro, para nos lembrar que seja qual for a situação em que eu me encontre, há uma escolha a fazer e dela me responsabilizar sem justificativa outra senão: eu escolhi.


Claudio Pfeil

18/5/2019

Claudio Pfeil na Casa Vitral

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