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  • Claudio Pfeil

CARTA A UM AMIGO

Atualizado: 26 de mai. de 2020


Caro amigo,

Permita-me, de início, uma réplica. Esse papo "não tinha outra opção" é cinismo, má-fé no sentido sartriano da palavra: tinha sim. No primeiro turno havia outros 12 candidatos e você escolheu votar nele desde então. Bolsonaro, HOJE, NÃO É diferente do que SEMPRE FOI: débil, vulgar, violento, preconceituoso, autoritário, inapto. Há 3 décadas como deputado medíocre (aprovou apenas 2 projetos! Repito: 2 projetos em 30 anos), se refestela no dinheiro público e no poder das milícias, vociferando aos 4 ventos seu apoio a torturadores e grupos de extermínio, além do ódio a gays, pretos, minorias em geral. Muitos, como você, preferiram pagar o preço dessa desgraça simplesmente para afastar o PT do poder e manter Lula preso. Não vou entrar nessa discussão, cada um tem seus motivos, motores, promotores.

O que sei é que deram um cheque em branco a quem, sob pretexto de uma facada duvidosa, não apresentou nenhum projeto de governo - em vez disso, pautou-se no moralismo mais barato e no bombardeio de fakenews em redes sociais e grupos de whatsapp -, recusando-se a participar de quaisquer debates como se não fosse candidato a nada, e nada tivesse de concreto a propor à população. E de fato não tinha. E ainda que tivesse, penso eu, um candidato que se recusa a dialogar, por si só, não merece voto simplesmente por desrespeitar o princípio mais básico da Democracia.

O resultado é o que estamos assistindo agora, num misto de pavor e perplexidade. Como um sujeito moralmente vexaminoso e baixo, com qualidades cognitivas e comportamentais tão medíocres, recebeu o aval cego de 57 milhões? A história dará todas as letras a isso. Aliás, ela já está nos julgando: ninguém escapa. No momento não importa tanto, talvez nada.

Importa sim, AGORA, qualquer que tenha sido o seu, o meu, o voto do vizinho, constatarmos todos o estrago feito, lutar para sair dessa atmosfera asfixiante, brochante, imbecilizante, que rouba nosso tempo, energia, vidas. Ainda que Bolsonaro caia - o que, faço votos, aconteça o mais rápido possível - os danos morais, mentais e materiais exorbitam qualquer espírito racional, dentro e fora do País. Mas, como disse há algum tempo, haveremos de sobreviver lindamente a esse estrago e reconstruir um País bom de viver.

Meu recado é esse: se você acha que não teve opção no passado, neste momento em que me lê, tem. Repito: se você julga que não tinha opção antes, agora tem. E ouça-me de coração: a opção de quem minimamente ama a civilidade - a coexistência respeitosa de pretos, brancos, marrons, vermelhos, cinzas, amarelos, índios, plantas, animais, e todas as diferenças à condição de não serem excludentes entre si - é a de tirar o fascista Bolsonaro do cargo supremo da Nação, e aclarar na justiça todas as sombras criminosas que recaem sobre ele e sua família.

Vamos vencer. O Brasil pode ser um lugar maravilhoso de viver. Mas é preciso escolher o que se quer construir como País. E para tanto, ousemos fazer uso do nosso entendimento como diz Kant. É um trabalho longo, difícil, de certo, mas menos arriscado do que dar cheque em branco a quem não respeita ninguém, sequer a si próprio como humano.

Continuo a amá-lo, embora meu afeto por você seja mais triste ou menos alegre. Mas afetos não são pedras: são o sabor da vida que se cria e recria através dos encontros. E haveremos, assim esperanço, de recriar o nosso quem sabe talvez com a olhar de Aristóteles, a amizade de Espinoza, a paixão de Kierkegaard, a força de Nietzsche. E Sartre, claro, para nos lembrar que, seja qual for a situação em que eu me encontre, há sempre uma escolha a fazer e por ela me responsabilizar sem justificativa outra senão: eu escolhi.

Claudio Pfeil

18/5/2019

Casa de Espinoza, Haag Leiden, Holanda


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