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  • Claudio Pfeil

Casa Vitral Online 7, Da "Revolução Espinoza" à responsabilidade Política: primado da solidariedade

Partindo do que concluímos no debate anterior, a saber, generosidade e solidariedade não são incompatíveis, mas tampouco equivalentes - generosidade é o contrário do egoísmo; já solidariedade é um egoísmo coletivizado para fins de eficácia -, retomamos o tema do valor moral, apoiando-nos metodologicamente na definição kantiana de moral (Fundamentação da Metafísica dos Costumes) e na ilustração platônica do “anel de Giges” (A República). Destacamos dois pontos essenciais: primeiro, a moral é exclusivamente em primeira pessoa, só eu posso saber se minha ação tem valor moral, ou seja, se é desinteressada – a questão moral se coloca exclusivamente em primeira pessoa: “o que eu devo fazer?” e não “o que os outros devem fazer?” (isso é moralismo, não é moral); segundo, a moral pressupõe que eu aja, não em função de coerção ou monitoramento externo, mas sim da minha decisão de escolher livremente agir de um jeito quando poderia agir de outro, “às ocultas dos deuses e dos homens” como diz Platão. Em razão do quê dizemos que a moral basta a si mesma, “não precisa de forma alguma de Deus” (Kant), é livre, autônoma: “obedecer à lei que se prescreve para si mesmo é um ato de liberdade” (Rousseau).


A partir dessa concepção moral de autonomia e liberdade, evocamos Espinoza, séc. XVII (Tratado Teológico Político), o mais ousado, destemido e metódico representante do ateísmo e pioneiro do pensamento democrático: através da crítica da “superstição” como causa da servidão, Espinoza anuncia a grande revolução humanista e iluminista do século XVIII, a qual modifica radicalmente a política e o pensamento. O que não foi naturalmente sem consequência em sua vida pessoal: Espinoza, não só foi excomungado pela comunidade judaica de Amsterdã, como foi alvo de linchamento e segregação social, inclusive tentativa de assassinato. Essa temática do livre pensar foi ilustrada com depoimento da escritora e filósofa Rebecca Goldstein, de família judia ortodoxa, que teve Espinoza como modelo ético: “Essa é exatamente a forma certa de fazer isso. Ter seus pensamentos e tentar segui-los em sua própria cabeça” (documentário “Alma Imoral”).


Avançamos no sentido das consequências, no campo moral e político, da generosidade e solidariedade: vimos que a primeira pode se constituir em uma “armadilha” (subserviência), enquanto a segunda tende à justiça social. Relacionamos o primado da solidariedade na política com a educação libertadora de Paulo Freire, e impossibilidade de neutralidade. A partir daí, debatemos a responsabilidade política (oposto de neutralidade), com base no depoimento de Silvio Almeida sobre racismo estrutural e luta antirracista.


Claudio Pfeil


CASA VIT(R)AL 9/7/2020


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