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  • Claudio Pfeil

COM TODO O RESPEITO, LYA LUFT



“Te confesso que votei e me arrependi. Votei na falta de coisa melhor e me arrependi muito. Não conhecia direito. Queria uma trégua do PT, era muita esculhambação, corrupção, não foi uma fase boa. Votei nele e me arrependi em seguida”

Lya Luft, Folha de SP


Com todo respeito Lya Luft, permita-me uma réplica.


Esse papo "Votei na falta de coisa melhor...não tinha outra opção" é cinismo, má-fé no sentido sartriano da palavra: tinha sim. No primeiro turno havia outros 12 candidatos. Você escolheu votar em um que HOJE, NÃO É diferente do que SEMPRE FOI: débil, vulgar, violento, preconceituoso, autoritário, inapto, corrupto, íntimo de torturadores e milicianos.


"Não conhecia direito"? Um professor meu da Sorbonne dizia: a gente é responsável pelo que conhece, e também pelo o que não conhece. Não conhece? Procura conhecer. Esse é o primeiro passo decisivo ao qual nos exorta Aristóteles: deixar de ser "idiótes" para tornar-se "Politikon". Em vez disso, você encampou o discurso policialesco de "pessoas de bem contra a corrupção" e abraçou o fascismo. Sem querer desmerecer seu gesto de arrependimento, legítimo de todo humano, agora é cômodo e fácil dizer que não sabia.


Acha Haddad corrupto, “PT nunca mais”? Votasse no corrupto, mas não em quem golpeia a democracia. O PT, a despeito de duras críticas que lhe possamos fazer, governou o País durante 12 anos e nunca ameaçou a democracia, pelo contrário, fortaleceu as instituições garantindo-lhes sua autonomia. O próprio Sérgio Moro, vassalo fascista, ex-ministro da justiça de Bolsonaro, reconheceu isso. Acha Haddad escroque? Pois bem, votasse nele e continuasse e lhe fazer oposição livremente. Democracia é isso. É bom ter sempre em mente o que parece óbvio, embora para os milhões que elegeram Bolsonaro – muitos na onda hipócrita do “se não for bom a gente tira” – não pareça tão óbvio assim: fascismo e oposição são incompatíveis, fascismo é antidemocracia.


Fato é que gente supostamente esclarecida, como você, deu seu voto para este que é considerado no mundo inteiro um dos políticos mais abjetos do planeta. Outros lavaram as mãos. Tá aí o resultado.


Genocídio da população, democracia em agonia, "esculhambação" (retomando seu termo) da cultura, das instituições e da própria língua nacionais. Realidade feia, atroz, bruta.


Dá um belo poema, não?


Saudações, em respeito aos poetas.


Claudio Pfeil

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