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  • Claudio Pfeil

COMO SE DEVE CHAMAR QUEM SERVE - OU SERVIU - AO FASCISMO? CARTA A UMA AMIGA

Cara amiga

Acerca de meu texto “Vassalo fascista”, você comentou: “dispenso as agressões ao Moro, a quem tenho em alta conta. Ok? De resto, mantenha-se saudável”.

Honestamente, não vejo onde meu texto contenha “agressões” ao ex-juiz e ex-ministro da Justiça. Permita-me dizê-lo: dispenso inversões. Justifico-me.

Quem agrediu o Estado de Direito e a Democracia, conspirando com a acusação e condenando um réu sem provas à serviço da extrema-direita e de sua ascensão ao poder, não é segredo de ninguém: Sérgio Moro. Juiz não é parte do processo, é, ou deve ser, imparcial: um juiz que toma parte, não julga, e sim, se avassala. Numa Democracia, os fins não podem justificar os meios, jamais; do contrário, o direito é solapado pela arbitrariedade. Chamar a quem serve ao fascismo de vassalo fascista, é agressão? Como se deve chamá-lo? “Juiz corrupto” seria, segundo você, agressão?

Quanto a ter Moro em alta conta, é um direito seu: cada um escolhe seus afetos e desafetos. Da mesma forma, é direito seu querer reconfortar suas convicções quaisquer que sejam os motivos. O que não é direito seu, tampouco de ninguém, é tentar infirmar fatos para confortar suas convicções. Se depois das revelações de Intercept acerca da parcialidade de Moro - “herói anticorrupção” da conspiração “Farsa-Jato” - e do toma-lá-dá-cá a que sordidamente se prestou com fascistas, você ainda escolhe tê-lo “em alta conta”, nada tenho a lhe dizer senão que isso me choca profundamente tanto mais vindo de uma jornalista, de quem se espera, penso eu, obediência e servidão aos fatos, não às convicções pessoais. Retomo o que escrevi em meu texto: “Está comprovado: nos últimos 25 anos, Moro foi o ministro da Justiça que mais abriu inquéritos para proteger um presidente”. Moro herói, só se for do crime: não só dispenso como deploro e repudio sua agressão à Democracia e seu avassalamento ao fascismo. Reitero: Moro, vassalo fascista.

Mas uma coisa tenho aprendido nesse horror que estamos padecendo em nosso País: seja ele manifesto ou velado, rasgado ou cínico, o bolsonarismo é em grande parte irracional. Complacência abominável com a incivilidade em nome de um fantasma inventado.

Por fim, retribuo os votos de “mantenha-se saudável”. (Não faça como o psicopata genocida que, na contramão das recomendações sanitárias e científicas mundiais, incita a população a desrespeitar o isolamento social, colocando-a na linha de frente da morte: siga as recomendações da OMS!). A propósito: chamar Bolsonaro de psicopata genocida, é agressão?

Despeço-me com meu abraço e recado: mantenhamo-nos todos saudáveis - o que, no meu entender significa, não somente a necessidade de nos prevenir e lutar contra a pandemia, mas também, de reconquistar o Estado de direito, as liberdades democráticas, a inteligência e civilidade, a leveza e o entusiasmo, os direitos solapados e usurpados dia a dia pelo fascismo que assola o País.

Isso sim será recobrar a saúde, respirar, sarar, viver em paz.

Claudio Pfeil


Charge Aroeira


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