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  • Claudio Pfeil

CORINGA: DO ESTIGMA À REVOLUÇÃO

[AVISO: este artigo contém revelações sobre o enredo]


“Joker”, em inglês, é brincalhão: o verbo “to joke” significa fazer graça, piada. É também uma carta do baralho, especialíssima: a que não tem valor fixo, varia de valor. Por isso o “joker” não tem indicação numérica, é representada por aquele a quem falta seriedade, estabilidade das relações e valores estipulados: o palhaço. O palhaço ri de tudo, de todos: não é sério. Não é sóbrio, ajuizado, sisudo. Muito riso pouco siso, diz o provérbio. O valor do “joker” reside nessa falta: não ter siso, constância, previsibilidade, é o seu valor. Não é fixo, é mutante. Ele vale, não por si, pelo que é, mas pelo o que o jogador irá lhe atribuir em função da combinação em mão. Está literalmente nas mãos de quem o manuseia: ele vale, e só vale, através do outro. Seu valor é pura alienação, transferido para o outro, conferido pelo outro, conforme a situação, conveniência, prazer, riso. O ser do “joker” depende do outro: é um palhaço.


Palhaço, bufão, louco, em francês, “fou”. Interessante a etimologia: do latim “follis”, inflado, cheio de ar. Fulano é “fou”: cabeça oca, vazia, alienada. Alienar, raiz latina também: “alien”, outro, daí “alienare”, tornar outro. Entrevemos então três nuances em alienar. O louco é quem se torna outro por conta da cabeça vazia, cheia de ar; não responde por si, uma vez que transfere a outro (valor, bem, responsabilidade); por fim, afasta-se de si e do mundo, pessoas afastam-se dele, o afastam. O louco tem o estigma de sombrio, inconsequente, esquisito. Seu comportamento é sempre imprevisível, bizarro, chocante, ao sabor das vontades, desejos, ocasiões. Mas tem estigma também de original, audacioso, livre: expõe-se a todo tipo de aventura e risco, o que faz dele símbolo de evolução e caos.

É uma carta de tarô, o bobo da corte - em francês “le fou du roi” (literalmente: o louco do rei) - que deu origem ao “joker” no jogo de cartas. O bobo da corte é um personagem dos reinos e castelos da Idade Média. Era frequentemente um anão, alguém com deformação física, distúrbio mental, ou que se fingia de louco. Tinha como missão divertir a corte, ridicularizar, rebaixar, pisotear, e a prerrogativa de criticar o rei sem ser repreendido, à condição de suscitar risos - afinal era bobo, louco. No limiar entre razão e loucura, o “fou du roi” representa a perplexidade, um elo entre o que se exclui e o que se impõe, entre deficiência e poder, entre grotesco e norma. Dessa maneira, o bobo da corte cumpre inadvertidamente um papel institucional, nada bobo: o de conciliar tensões sociais e manter cada qual e cada coisa no seu devido lugar, alicerçando, fortificando a estrutura de poder. O “fou du roi” é um bobo útil, aquele que transforma o grotesco em palhaçada, a deformação em riso, a anomalia em exceção, uma carta literalmente nas mãos e a serviço do rei: um “joker”.


Aristóteles não gostava muito de comédia: desopila, mas não educa, dizia. Rir do outro é rebaixá-lo, desprezá-lo. Educar - tomar consciência de si e das relações de si com o mundo - requer “sumpatheia”, comunhão de sentimento, sentir na pele o que o outro está sentindo. Na comédia não há comunhão, há derrisão: quando eu ridicularizo o outro, eu me coloco acima dele. Aliás, rir vem do latim “ridere”, tornar irrisório, derrisório. A derrisão em relação ao outro torna o outro irrisório comparado a mim. Daí, a preferência aristotélica pela tragédia, que encena o horror e a loucura, mas onde o que está em jogo não é rir do outro, e sim, sentir como o outro. A tragédia é uma relação horizontal, a comédia, vertical. Se recorro a Aristóteles, a razão é que, a despeito de reconhecer a verticalidade do burlesco, podemos entrever por detrás de seu semblante e comportamento histriônicos, uma pedagogia silenciosa: a cabeça mais vazia, alienada, ilógica, pode imprevisivelmente nos assaltar com uma palavra de verdade, liberar algo que nos faça reconhecer a nós mesmos. Virar o jogo: o coringa de cada um. Daí sua força implacável, mortal.


O palhaço, o louco. Chegamos, enfim, ao Coringa. A começar pela palavra, que em português traduz “joker” – fiquei curioso: de onde vem? Do Kimbundu, língua nativa de Angola: “Kuringa” significa matar. Matar? Intrigante. Coringa, além da carta do baralho, é aquela pessoa que pode assumir o papel ou valor de outra: no futebol, por exemplo, coringa é quem joga em qualquer posição. Eureca! Coringa é quem “mata” tudo, mata qualquer problema: resolve, soluciona, liquida, elimina. “Matou no peito”, se diz no futebol. Foi a pista para eu interpretar “Joker”, obra prima de Todd Philips, com o espetacular Joaquin Phoenix, no personagem de Arthur Fleck, o Coringa. Da arte ao dicionário, há a arte de interpretar. Interpretar o mundo ao redor. E Coringa nos adverte: a tarefa é urgente.


“Coringa” é um filme, parodiando Freud, sobre o mal-estar da civilização, da nossa civilização. Uma civilização declinante, violenta, convulsionada, detonada por imperativos de consumo, de felicidade prêt-à-porter, em meio ao lixo que transborda nas ruas, mentes, relações. Ratos não são mais necessários para espalhar a febre tifoide e instalar o caos em Gotham City, protótipo do que se tornaram as megalópoles contemporâneas, pululantes de slogans voluntaristas e meritocráticos, semblantes de progresso e liberdade, e que por força de sua insanidade social e abismos crescentes desigualdade, divide a sociedade em categorias de excluídos e privilegiados. “Joker” é um filme sobre o colapso social de nosso tempo, o “colapso moral de uma sociedade” de que nos fala Hannah Arendt, “que começa com sua divisão em categorias privilegiadas”. É o triunfo da “necropolítica”, além, muito além, de uma greve de lixeiros por tempo indeterminado: o humano é tratado como um objeto descartável, destinado ao lixo. Não há mais como esconder, maquiar, fingir que está tudo bem. Agressividade, criminalidade, desemprego, falência, “bullying”, corte de recursos na Saúde Pública, desmantelamento de serviços sociais. “É impressão minha ou as coisas estão ficando mais malucas lá fora?” – indaga o louco à assistente social, que lhe responde: “as pessoas estão tristes, lutando, procurando emprego”. Quem é o louco?


Arthur Fleck mora com a mãe doente, cuida dela, dá banho, comida; assistem programa de TV juntos, dançam ao som de “Smile” - na voz de Nat King Cole – numa emocionante cena. Ela o chama de Happy. “Minha mãe sempre dizia para eu sorrir, e ter uma cara feliz. Ela dizia que eu tinha um propósito: trazer risos e felicidade ao mundo”. Ele sonha em ser comediante, garatuja o diário com piadas, ideias, desenhos. Ninguém o leva a sério: é um “joker”, palhaço, maluco. Trabalha numa agência de propagandistas ambulantes vestidos de palhaço. Não são palhaços?


Bem no início do filme, vemos Arthur Fleck, vestido de palhaço, fazendo propaganda da loja em liquidação em meio à multidão de passantes. Brinca, salta, dança, graceja na calçada: coisa de palhaço. Segura uma placa amarela: EVERYTHING MUST GO. Liquidação do estoque. Queima total. Três rapazes passam, roubam a placa de sua mão, saem correndo. O palhaço corre atrás, afoito, desesperado, é atropelado, mas continua a correr - corre, corre, corre - até chegar a uma passagem soturna, deserta, onde os três rapazes o aguardam. Um deles quebra a placa na cara do palhaço, os três espancam-no, dão-lhe um montão de chutes. E por quê? Por nada. Ou melhor, por puro prazer, prazer em matar, agredir, dominar, subjugar, como nos ensina Freud. O palhaço fica no chão. “Você é um fraco”, sentencia um dos rapazes. Três contra um. Quem é o fraco? Quem é o palhaço?

É o que a necropolítica com suas categorias de excluídos, palhaços, risíveis, irrisórios, malucos, deformados, fracos, a exemplo dos produtos encalhados nas prateleiras: há que se queimar todo o estoque, consumir, liquidar. EVERYTHING MUST GO. Quem se importa? São palhaços, não tem valor. São cartas em branco nas mãos de quem os manipula a seu bel prazer - poderosos, ricos, homens de bem -, segundo a conveniência do jogo. Mas para tanto, é preciso um porta-voz potente, centenas, milhares, milhões, onipresente, 24 horas no ar, capturando olhares, solicitando aplausos, dizendo o que é sério e o que não é, o que é engraçado e o que não é, o que é risível e o que não é, o que é decente e o que não é: são os canais de televisão, a imprensa corporativa. Estes são o “fou du roi” do mundo atual: entretém, divertem, ridicularizam, “informam” – formam e deformam o que convém, dividem a sociedade em excluídos e incluídos, em palhaços e pessoas de bem, menosprezando os primeiros e atemorizando os segundos, para manter cada coisa e cada qual no seu lugar, e acima de tudo, o poder dos privilegiados. Exatamente como o bobo útil da Idade Média: literalmente nas mãos do poder, a serviço dele, em troca de suas benesses. O que o riso fragmenta e exclui, a imprensa do poder se encarrega de perpetuar: o privilégio de não ser palhaço [Detalhe extremamente importante no filme: seja em casa, no trabalho, no bar, todos assistem aos mesmos jornais televisivos e programas de auditório; no trem ou metrô, leem as mesmas manchetes de jornal]

Nesse contexto de colapso moral e social, resultado de políticas de exclusão e morte – membros da população são literalmente deixados para morrer: pobres, dependentes químicos, loucos, doentes, refugiados, imigrantes: “fuck you loser!” – se alastra uma febre pior que a tifoide, provocada por ratos-humanos que se arvoram em salvadores da pátria, messias designados por Deus, toda uma legião de “iluminados” não sei por que diabo. Em “Joker”, o milionário Thomas Wayne (interpretado por Brett Cullen) e candidato a prefeito de Gotham, diz ser “a única esperança das pessoas mesmo que elas não percebam isso. No fundo, elas nos invejam porque tivemos êxito na sociedade, somos ricos, não somos palhaços como elas”. Imagine só eu dizendo a você: eu sou seu salvador, sua única esperança, e mesmo que você não me reconheça como seu salvador, é compreensível: você tem inveja de mim, eu dei certo na vida, já você, não, é um palhaço. Não é difícil ver aonde isso pode chegar: eu me dou o direito de decidir o que quiser a respeito de sua vida, queira você ou não, nem que para isso eu seja obrigado a forçar você, quebrar uma placa na sua cara, chutar, espancar, violentar, “queimar seu estoque”. E ainda me agradeça por isso: você é um palhaço, eu sou homem de bem. É exatamente ao que estamos assistindo no Brasil: a extrema-direita fundamentalista, bolsonarista, messiânica, ultraliberal, decidindo o que é “coisa de menino” e o que é “coisa de menina”, o que é arte e o que não é, o que é verdade e o que não é, quem é humano e quem não é, o que é ser e o que não é, quem merece viver e quem não merece, quem pode ter direitos e quem não pode. Quem é o palhaço?


É aí que a tragédia, no sentido aristotélico, ganha a tela, em sua gama de contradições. Quando os pisoteados, ridicularizados, desesperançados, moribundos da sociedade, resolvem não mais ter que sorrir para aqueles que os pisoteiam, ridicularizam, lhes subtraem a esperança, liquidam, o palhaço dá lugar ao Coringa. Qual a diferença entre um e outro? São o mesmo, ambos excluídos, porém, o Coringa é o palhaço que se apropria do papel a ele designado, não se deixa mais pisar, debochar, apanhar, o bobo da corte que se rebela das mãos do rei, o louco que indaga a própria loucura. O Coringa faz coisas horríveis, condenáveis, mas nos simpatizamos com seu drama, sua dor, seu desamparo, a ponto de nos identificarmos com ele. É o primeiro Coringa que nos inspira compaixão, a “sumpatheia” de que fala Aristóteles.


Há dois momentos marcantes dessa simpatia. O primeiro, quando Arthur Fleck, vestido de palhaço, reage no vagão do metrô à gozação e assédio de três rapazes de Wall Street. O desfecho trágico faz a mídia alardear por toda Gotham City, afinal, os vitimados eram homens de bem: “Estão matando os ricos”. Segundo, e o mais significativo: Arthur Fleck é convidado a participar do programa humorístico de maior audiência na TV, ao vivo, e cujo apresentador, Murray Franklin (Robert de Niro). Antes de entrar, Arthur Fleck pede ao apresentador: “Murray, só uma coisinha, quando você me chamar, pode me apresentar como Joker?”. O apresentador titubeia, mas aquiesce com uma advertência: “Nada de palavrões, aqui é um programa de gente decente”. Essa cena é fundamental, eu diria a chave semântica do filme: é o momento em que se apropria da palavra que o estigmatiza – “Coringa” - para se empoderar e se insurgir contra a palhaçada de um sistema que faz dele palhaço ao designá-lo como tal. É uma tendência cada vez mais forte dentro de grupos estigmatizados, as chamadas “minorias”: se apropriar dos rótulos estigmatizantes para tomar posição e ser visto – é o significante que dá lugar, faz ver – como meio de lutar por seus direitos, e principalmente, sair do controle do outro. Não é à toa que a cena ocorre ao vivo no programa humorístico de maior audiência na TV, como se Arthur Fleck dissesse aos olhos e ouvidos do mundo inteiro: se assim me chamam palhaço, assumo o rótulo que “gente decente” me impõe, e decido por mim mesmo levar essa palhaçada às últimas consequências. Fim da caça ao palhaço: o caçador, doravante, é o Coringa. Virada espetacular do jogo: “achava que minha vida era uma tragédia, agora vejo que é uma puta comédia”. Comédia da vida real, vida cujo valor não está nas mãos do outro, como o “joker” nas mãos do jogador. O Coringa finalmente se toma em mão. Não vou revelar a sequência, apenas dizer que é uma das cartadas mais sensacionais de Joker. E vou lhes dizer: eu torci por ele. Implacável, mortal.


A força mortal do “joker” reside menos no prazer de matar, no sentido de Freud, mas no poder dionisíaco, nietzscheano, daquele que reconhece as pulsões, sensações, afetos, paixões, e assume a realidade trágica da existência. Assumir para se empoderar, se empoderar para se reinventar, sem a tutela moralizante de verdades impostas, transcendentes, artificiais, que só fazem desprezar, diminuir, ridicularizar, enfraquecer o humano. Deixar de ser a carta que só vale segundo conveniência, combinação do jogo do outro. É assumir o estigma do louco - sua originalidade, audácia, liberdade, aventura, riscos - símbolo de evolução e caos. Deixar encher-se mais de vento, vazio, ter a versatilidade do coringa que joga em qualquer posição, que “mata” tudo, resolve, soluciona, liquida, elimina aquilo que diminui sua potência de existir – seu “conatus” como diz Espinoza - o faz adoecer de tristeza. Como diz Arnaldo Baptista e Rita Lee em “Balada do louco”: “Se eu sou muito louco por eu ser feliz / Mas louco é quem me diz / E não é feliz, não é feliz”.


Enfim, o Coringa é ao mesmo tempo exceção e solução: no que ele falha e fracassa - não tem valor social nenhum, é um “loser” –, triunfa, uma vez que, tal o “joker” do baralho, é capaz de a qualquer momento inverter, subverter o jogo. Ele é o anti-herói que faz do seu estigma, revolução. “A minha vida inteira eu nunca soube se eu existia de verdade, mas eu existo. E as pessoas estão começando a notar”. O palhaço, fracassado, excluído de Gotham City, passa a ser, a sua revelia, o representante das categorias de excluídos que vãos às ruas protestar com cartazes: SOMOS TODOS PALHAÇOS. Descoberta de que há um sujeito por detrás de todo palhaço, o que chamei acima de pedagogia silenciosa na loucura e no riso. Sentir-se valer com o outro, para o outro, e não exclusivamente através do outro como o “joker” do baralho. A máscara de palhaço jogada no lixo serve de metáfora à cura da insanidade do corpo social. Mas é preciso escutar, dar ouvido ao louco, ao palhaço, ao Coringa: “sumpatheia”, comunhão de sentimento, sentir na pele o que o outro está sentindo. Perceber o que há de trágico por detrás da comédia, da máscara. Mais horizontalidade do que verticalidade nas relações. “A pior parte de se ter um distúrbio mental é que a sociedade espera que você se comporte como se não tivesse distúrbio nenhum”. Assumir-se louco, palhaço: que Coringa eu sou nessa palhaçada toda?


Claudio Pfeil


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