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  • Claudio Pfeil

DECÊNCIA E COMPAIXÃO POR FAVOR

Atualizado: 5 de nov. de 2019

Na minha infância, vendia quadros que pintava ao titio, titia, amigos do titio, da titia. Juntava o dinheiro que ganhava na caderneta de poupança. Fiz várias exposições, a primeira no quintal de casa em Resende, os quadros pregados nos troncos de árvore.


Eu era criança. E pintar dá trabalho. Mas posso dizer que isso era "trabalho infantil"? Só se a vaidade, hipocrisia ou perversão me fizessem esquecer que nunca precisei pagar um tostão por uma roupa, prato de comida, contas da casa. Sempre tive pai e mãe que cuidaram disso e me encaminharam nos estudos, deveres escolares, podendo eu dispor do tempo que quisesse para estudar, descansar, brincar. O que aprendi foi por isso. O que não aprendi foi por preguiça, desinteresse ou por fazer parte da casta humana de privilegiados que nascem numa família suficientemente abastada para garantir a seus filhos o direito fundamental de toda criança: infância - o que inclui lazer e instrução. Escola, aliás, vem do grego "Skholê" que significa "tempo livre": quem é escravo do trabalho e não pode dispor de seu tempo como bem quiser, não tem escola. Nem escolha. Eu tive as duas.


É fácil se pavonear: "trabalhei quando criança e isso não me prejudicou", quando se faz parte, como eu, da casta de humanos privilegiados. Decência por favor, e um mínimo de compaixão.


"Trabalho infantil" não é vender quadros para o titio e a titia, vender brigadeiro aos coleguinhas de escola para ganhar um dinheirinho, encher o porquinho ou colocar na poupança: é ser obrigado a abrir mão da escola e da infância para poder sobreviver.


Isso é crime. E todo aquele que defende trabalho infantil é criminoso. Além de um humano indigno desse nome, para não dizer a palavra justa: canalha.


Cláudio Pfeil



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