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  • Claudio Pfeil

FREU-D-ESCART-ES-SENCIAL


Aula Casa Vitral
Claudio Pfeil

É preciso revisitar a raiz da experiência do cogito em Descartes para alcançar o que está essencialmente em jogo em Freud. Descartes, o ‘gênio fundador original de uma nova maneira de pensar’ – como diz Husserl - é quem nos fornece a chave para adentrar, não somente a Fenomenologia, como também a Psicanálise. Ouso dizer, parodiando Husserl, que quem quiser seriamente se tornar psicanalista deve uma vez na vida retirar-se para dentro de si mesmo, numa espécie de ‘retrocesso ao EU’ – como o fez Descartes - num sentido mais profundo, genial. Pois a genialidade em Descartes reside não propriamente na sua doutrina, no ‘cartesianismo’, mas sim no que ela traz escondido


O quê? Exatamente o que é anterior a todo ponto de vista do EU, o dado intuitivo anterior ao EU e todo pensamento. Nesse sentido, Freud é totalmente fenomenólogo: o EU, que na experiência do cogito cartesiano aparece como indubitável, autônomo, unitário, bem demarcado de tudo o mais, para Freud é uma aparência enganosa. Não existe uma fronteira nítida do EU: eu sou, não o EU que aparece em consequência do meu pensar, mas justamente o que é anterior ao EU, se prolonga numa vida psíquica inconsciente (que Freud denomina ID) da qual o EU é uma espécie de fachada. É justamente ao interrogar essa relação do EU com o ID, da fachada com o interior, que Freud funda a Psicanálise. Ao ‘ego cogito ergo sum’ de Descartes, que faz do EU senhor de si, Freud vai contrapor ‘o EU não é mais senhor em sua própria casa’. Nessa mesma direção, Merleau-Ponty dirá: ‘o mundo é não aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo’, Sartre: ‘a existência precede a essência’, e Lacan: ‘sou onde não penso’.


É preciso 'retroceder ao EU' para que eu me revele como fronteira impermanente do EU, demarcado do EU: assim começa a Psicanálise. Freu-d-escart-es-sencial”


Claudio Pfeil

FREUD: O Mal-estar na Civilização


CASA VIT(R)AL

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