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  • Claudio Pfeil

MULHERES, RAÇA E CLASSE – DA ABOLIÇÃO FORMAL DA ESCRAVIDÃO À ESCRAVIDÃO COM OUTRO NOME: JIM CROW

Quando a guerra civil é deflagrada (1861), as feministas entram de cabeça na campanha abolicionista; finda a guerra (1865) - com a vitória dos estados do Norte (União) sobre o sul (estados confederados) – as feministas exigem, como “recompensa”, o sufrágio das mulheres. Este, porém, não estava na pauta do Partido Republicano, que admitia no entanto, o voto do homem negro, não por supremacismo masculino ou ideal humanitário, mas meramente por tática política:


1) O VERDADEIRO JOGO DA GUERRA CIVIL – A burguesia do Norte (capitalismo industrial) versus classe escravocrata do Sul, em favor da hegemonia econômica e política (Partido Republicano). Sufrágio do homem negro: jogada tática. “ ‘Chegou a hora do negro’, eles estavam, na verdade, dizendo em silêncio ‘Chegou a hora de mais 2 milhões de votos para nosso partido’.” Angela Davis (AD).


2) ATRITO INTERNO AO MOVIMENTO FEMINISTA – Para Elizabeth Stanton e muitas feministas, a concessão do sufrágio aos homens negros é supremacismo masculino, sexismo. Oposição ao voto dos negros. “Linha de raciocínio oportunista e lamentavelmente racista” (AD); além disso, ignorância da “total precariedade da recém-conquistada ‘liberdade’ da população negra após a Guerra Civil”


3) REALIDADE DA RECÉM-CONQUISTADA LIBERDADE DOS NEGROS NO PÓS-GUERRA – Libertação dos negros: apenas nominal, formal (opressão econômica, massacres por parte de gangues). Frederick Douglass: o voto dos negros como “prioridade estratégica”, única maneira de consolidar e garantir a nova condição de “liberdade”. “A escravidão não terá sido abolida até que o homem negro possa votar. Sem o voto eletivo, o negro permanecerá praticamente um escravo” (FD).


4) “EMENDAS DE RECONSTRUÇÃO” – Com o fim da Guerra Civil (9/4/1965), período da “Reconstrução”. “Emendas Constitucionais de Reconstrução": 13ª Emenda (1865) → abolição formal do escravagismo (mais de 4 milhões de escravos negros libertados); 14ª Emenda (1868) → igualdade civil; 15ª Emenda (1870) → direito de voto dos negros.


5) NEGROS E BRANCOS FORMALMENTE IGUAIS, MAS DE FATO, NÃO – Vários estados burlam a ampliação dos direitos aos negros com pré-requisitos e condições (taxas, teste de escrita) e a aprovaram de leis segregacionistas, conhecidas como leis “Jim Crow”.


6) LEIS “JIM CROW” – Origem do nome: personagem dos anos 1820 (crow = corvo). Posteriormente, espetáculo teatral tipicamente americano, muito popular até os anos 1960 - The Minstrel Show (show de menestréis) - quadros cômicos, artistas brancos com “blackfaces” (rosto maquiado de preto). Ridicularização dos negros em diversas situações estereotipadas. “Jim Crow”, nome pejorativo dado aos afroamericanos. Indústria Cultural: primeiro filme sonoro, desenhos da Disney, quadrinhos, publicidade. “Jim Crow”: marca (estereótipo) de como negros são vistos por brancos supremacistas (inferiores, menos desenvolvidos intelectualmente, cidadãos de segunda classe). Daí o nome às leis de segregação entre negros e brancos, vigentes em vários estados (1876 a 1965).


7) CASO PLESSY: “SEPARADOS MAIS IGUAIS” – 1896: Plessy – branco de bisavô negro - preso e condenado por se negar a sair de uma área do trem exclusiva para brancos. Episódio conhecido por uma frase da sentença: “separados, mas iguais”; ou seja, brancos e negros eram iguais, mas deveriam permanecer separados. Essa decisão da Suprema Corte robusteceu a segregação, doutrina “iguais, mas separados” (“equal but separate”). Realidade da sociedade americana de 1870 a 1960: segregação entre negros e brancos. No papel, as leis garantiam igualdade de direitos; todavia, a realidade era muito diferente.


8) SURGIMENTO DA KU KLUX KLAN – reação violenta aos direitos civis e políticos dos negros no sul dos EUA. Etim., sigla (KKK), emblema, simbologia, ritual de batismo, “queima da cruz”. Organização supremacista, racista, antissemita, fundamentalista, terrorista. Banimento nos EUA (1872), ressurgência legal (1915, Georgia). 4 milhões de membros em 1920. David Duke, ex-líder da KKK (1974-1978): negacionismo, teorias conspiratórias, apoio a Trump e Bolsonaro. KKK fora dos EUA: Alemanha, Canadá, Austrália, Reino Unido, Brasil.


9) 95 ANOS DE DEFASAGEM – 1965: Lindon Johnson, “Voting Rights Act”. Objetivo: acabar com entraves enfrentados por negros e pobres para votar - durante 95 anos, a 15ª Emenda (1870) ficou só no papel. M. Luther King, Rosa Parks (1955). 2021: Raphael Warnock, primeiro senador negro na história da Geórgia, escravagista, supremacista, racista. Stacey Abrams: ativista política, grande articuladora da vitória democrata na Geórgia. A invasão do Capitólio pelos “wikings” (“masculinistas”) de Trump.


Fala de Mônica De Bolle, economista e pesquisadora




"Amanhã", de Guilherme Arantes: alunos do prof. Marcelo Pfeil, rede pública de Macaé no C.E.M Raul Veiga



Claudio Pfeil


CASA VIT(R)AL 10/12/2020




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