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  • Claudio Pfeil

MULHERES, RAÇA E CLASSE – DA FORMAÇÃO DO MOVIMENTO ABOLICIONISTA À CONVENÇÃO DE SENECA FALLS

O movimento abolicionista organizado tem início na década de 1830, marcada por forte tensão social e resistência, com rebeliões de escravizados e movimentos de greve, encabeçados principalmente por mulheres trabalhadoras brancas, cujo número representa mais do que o dobro da mão de obra masculina. Estas começam a tomar consciência de que, muito embora livres, são tão exploradas nas fábricas quanto os escravos nas “plantations”. Já as mulheres de classe média, relegadas ao papel exclusivo de esposa e mãe, passam a ver o casamento como uma espécie de escravidão; acresce a isso o fato de que, na transformação da sociedade americana em capitalismo industrial, sua condição enquanto mulheres se deteriora, uma vez que não são valorizadas por um trabalho relacionado ao mundo produtivo. É nesse contexto que o movimento abolicionista conta com adesão de muitas mulheres brancas, de classe média alta, que nele veem uma chance de serem valorizadas por um trabalho concreto e mais do que isso, de desafiar a supremacia masculina e seus direitos enquanto mulheres. Prosseguimos o seguinte itinerário:


1) FUNDAMENTAÇÃO DETURPADA DA RESISTÊNCIA DA MULHER ESCRAVA – Harriet Beecher Stowe (A cabana do Pai Tomas, 1852): “poder místico”, “instinto materno” como fundamento da luta antiescravagista. Crítica de Angela Davis (AD): “falha por completo”. O fundamento da resistência é a luta de classes, e não a ideologia cristã, ideologia cultural da época: culto à maternidade. Exemplo paradigmático de resistência à opressão escrava: Margaret Garner (“Medea Moderna”)


2) PRUDENCE CRANDALL: DUPLAMENTE “ALMA IMORAL” – Pioneira: “Escola de meninas e mulheres negras de cor”, a primeira nos EUA (1832). Reação: boicote dramático por parte da sociedade supremacista branca. Aliado fundamental de Prudence: William Lloyd Garrison, escritor abolicionista, editor do jornal Liberator: “Nenhum pacto com a escravidão”; “Nosso país é o mundo e nossos compatriotas são a humanidade”. Direito universal (humanidade) x direito particular (homens brancos). Prudence, duplamente “alma imoral”: transgressão da regra de segregação racial e de conduta da mulher branca (no sentido aristotélico: de “idiótis” a “politikon”).


3) PARADOXO – Ser abolicionista não significa necessariamente ser igualitarista racial: as associações abolicionistas são quase que 100% compostas de brancos, majoritariamente contrários à igualdade de direitos entre brancos e negros, e à participação dos próprios negros nas organizações abolicionistas. Além disso, a maioria dos abolicionistas é sexista.


4) REBELIÃO NAT TURNER (1831) – símbolo da vitória da resistência. “Melhor morrer livre do que viver escravo” (Nat Turner). Paralelo com a “Dialética do Senhor e do Escravo” (Hegel): só é verdadeiramente livre aquele que está disposto a tudo, inclusive abdicar de sua vida para se fazer reconhecer como sujeito, do contrário, torna-se dependente.


5) FORMAÇÃO DO MOVIMENTO ABOLICIONISTA ORGANIZADO – Indissociabilidade luta pela libertação de negras e negros ↔ luta pela libertação feminina


6) FREDERICK DOUGLASS – defensor do direito de voz das mulheres, igualdade de gênero e igualdade política: “Expressamos nossa convicção de que todos os direitos políticos que podem ser exercidos pelos homens sejam igualmente conferidos às mulheres.”. Oratória e participação política: até então atividades exclusivamente masculinas. Supremacia masculina na campanha abolicionista: deflagradora do movimento das mulheres. Surgimento de duas figuras importantíssimas para o movimento feminista: Lucretia Mott e Elizabeth Cady Stanton.


7) CONVENÇÃO DE SENECA FALLS (1848) – Primeira convenção pelos direitos das mulheres nos EUA (organizado por Lucretia Mott e Elizabeth Cady Stanton). Evento histórico: publicação da Declaração de Sentimentos (pela igualdade de direitos políticos)


8) “FATO PERTURBADOR” NA CONVENÇÃO DE SÊNECA FALLS – Nenhuma participação de mulheres negras ou mulheres brancas da classe trabalhadora: “A Declaração de Seneca Falls propunha uma análise da condição feminina sem considerar as circunstâncias das mulheres que não pertenciam à classe social das autoras do documento (...) Nem os documentos da convenção fazem qualquer referência às mulheres negras. À luz do envolvimento das organizadoras com o abolicionismo, deveria ser perturbador o fato de as mulheres negras serem totalmente desconsideradas” (AD).


9) ELEMENTO PRIMORDIAL: INTERSECCIONALIDADE – Angela Davis não apresenta um elemento conceitual (interseccionalidade) pronto, a ser aplicado: ele vai se formando a partir das experiências dialógicas, tensões dialéticas que formam, transformam a sociedade. Paralelo com Paulo Freire. Depoimento de Erica Hilton, primeira vereadora trans e negra da cidade de São Paulo (2020), a mais votada da cidade de São Paulo e de todo o Brasil


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Claudio Pfeil


CASA VIT(R)AL 10/12/2020



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