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  • Claudio Pfeil

O TRAFICANTE ÉTICO


Der Trafikant

O vendedor de tabaco diz a seu aprendiz: um mau charuto tem gosto de estrume, um bom charuto tem gosto de tabaco, e o melhor charuto – o cubano - tem gosto de mundo.


Pois, então: A TABACARIA (título original em alemão: "Der Trafikant"), filme do austríaco Nikolaus Leytner atualmente em cartaz, do início ao fim, é como o melhor charuto. Tem gosto de mundo com toda sua novidade e sutileza: a descoberta dos aromas do amor, dos enlevos do sexo, das confidências solitárias e solidárias, das texturas das cartas, dos beijos trocados, frustrados. E também com seus abismos enfumaçados: a irrupção da intolerância, agressividade, fanatismo, segregação.


Fez-me lembrar os “estágios da existência” em Kierkegaard, as etapas que cada um de nós realiza em seu caminho rumo à singularidade. Cada etapa é um ato subjetivo - em graus diferentes, progressivos - de um aprendizado. A TABACARIA é portanto um filme sobre a emergência do sujeito através do aprendizado que ele faz entre alegrias e angústia. Nesse sentido a primeira cena é muito expressiva: vê-se um jovem mergulhado no fundo de um lago; quando vem o temporal, raios e trovões, se vê impelido a emergir das profundezas, correr para a cabana onde mora, e abrigar-se sob as cobertas. A partir daí, o enredo faz do jovem Franz, de dezessete anos, aprendiz numa tabacaria em Viena, cujo dono é um idoso calejado, de muleta (perdera uma perna na primeira guerra), e que, além de iniciá-lo ao ofício de cigarros e charutos, lhe serve de sábio, conselheiro. Por tabela, o aprendiz conhece Freud, cliente da tabacaria, e entre os dois tem início uma segunda pedagogia afetiva: o jovem lhe pede conselhos sobre seu desamparo ante o amor e a “falta de sentido” dos sonhos que o fazem mergulhar, não mais no lago das montanhas que deixara para trás, mas num oceano de indagações e perplexidades.


Se, com o vendedor de tabaco, Franz aprende a tomar sua vida enquanto cidadão em mão, a tornar-se responsável pelo exercício diário do trabalho, a interiorizar leis, valores, a fazer laço social com os clientes, com Freud ele aprende a tomar seu desejo em mão. Literalmente: ante o enigma de seus sonhos, pesadelos, Freud o orienta a ter lápis e papel ao lado da cama para, tão logo desperte, os escreva como vêm à cabeça. Dois mestres da responsabilidade: com o primeiro, Franz faz o aprendizado da responsabilização social, do tráfico com o consciente; com o segundo, faz o aprendizado da responsabilização do próprio desejo, assumindo-se como sujeito do tráfico com seu inconsciente.


Trata-se, pois, de um filme sobre ética no sentido kierkegaardiano, compreendida como a tarefa que um sujeito se esforça em realizar - não mediante a obediência de normas e princípios estereotipados de um código social imposto - mas sim assumindo-se como agente de seu destino. O que isso significa concretamente? Fazer com que a ação seja consequência de uma resolução do sujeito, onde o resultado de cada ação tenha o valor - não o de uma satisfação imediata, de um gozo máximo aqui e agora, no meu mundinho – mas o do compromisso e responsabilidade com o humano, um valor absoluto. O lugar em que todos os homens se encontram, diz Kierkegaard, é na ação. Deixar de ser uma mera cópia dos estereótipos e convenções sociais, para se tornar um homem-original, de modo que o que eu digo e faço sejam a expressão solidária do aprendizado que faço da “verdade como subjetividade”, e a disposição que é minha em assumir o compromisso e a responsabilidade com todo humano. Isso implica necessariamente a entrar em colisão com o mundo estabelecido, convenções.


Não é nada fácil, pelo contrário, muitas vezes dramático. Assumir-se como agente do destino encontra todo tipo de resistência por parte de normas, leis, convenções, políticas. Além disso, ação implica escolha, e toda escolha implica em agir de tal maneira em vez de outra. É uma angústia, um dilema. Esse dilema é maravilhosamente ilustrado no filme em várias cenas onde vemos de que maneira Franz deseja agir, e de que maneira de fato ele age por conta do princípio freudiano de realidade. Mas chega um momento do aprendizado em que não se pode mais ceder, mascarar, “traficar”, negociar: é preciso escolher de tal maneira que essa escolha passe a ter um valor absoluto para mim. Em outras palavras, assumir o desejo como meu. Isso é que é decisivo na existência de cada um. Nesse sentido, “A tabacaria” é uma conjugação cinematográfica, das mais gostosas e mundanas, da ética kierkegaardiana com a ética psicanalítica. Foi o que fez o aprendiz: assumiu-se como agente de seu destino, reconhecendo sua angústia e ausência de respostas como incomensuráveis, inobjectiváveis, irredutíveis, para então expressá-las na ação concreta. Em suma, afirmou-se como ético. “O traficante” é ético.


Não vou me estender para não revelar mais do enredo. Apenas não posso deixar de dizer duas coisas.


Primeiramente, os atores são excelentes. Bruno Ganz, que morreu em fevereiro deste ano, faz um Freud apaixonante, a ponto de eu não mais saber quem é quem. Simon Morzé, o aprendiz, foi uma linda descoberta para mim: que olhar, que mão. E Otto (interpretado por Johannes Krisch) dono tabacaria é uma desses personagens-filósofos de quem vou sempre me lembrar em companhia do melhor cubano: tabacaria não vende tabaco, vende prazer, desejo e vício. Cenografia e fotografia primorosas, nos transportam para os mais lindos cenários de Ópera. Roteiro muitíssimo coeso, original, mesclando vários filmes em um só, o que é sempre um risco de desfaçatez: no caso em questão, não se perde um fio sequer da linha. Admirável.


Em segundo, para além da relação prosaica do aprendiz com seus mestres, o paralelo entre o contexto da ascensão do nazismo nos anos 30 (com anexação da Áustria em 1938) e o fascismo montante no Brasil em 2019 é inevitável. E sufocante. No ambiente atual de censura, eu me pergunto até agora como não picharam, vandalizaram e fecharam A TABACARIA a exemplo do que acontece no filme.


Em tempo: ABAIXO O FASCISMO NO BRASIL


Claudio Pfeil

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