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  • Claudio Pfeil

PAIDEIA DE CO(R)AÇÃO 

Atualizado: 18 de jan. de 2020

Em “O Futuro de uma Ilusão”, Freud traz a ideia fundamental de que novas gerações educadas na gentileza e na valorização do pensamento terão outro tipo de relação com a cultura: em vez de hostilidade e ânsia destrutiva em relação a ela, a reconhecerão como patrimônio mais autêntico e, por si próprios, sem que necessitem ser coagidos a isso, farão questão de cuidá-la, preservá-la. Mas para isso é preciso que a cultura deixe de ser exclusivamente um meio de coação - esta é inevitável, mas só eficaz até um certo grau -, e passe a ser um meio de educação desde a infância, capaz de converter uma maioria hostil à civilização, em minoria. Isso é Freud.


Pegando o gancho freudiano, podemos aprofundar a questão nos indagando: que meio de educação é esse capaz de transmutar a hostilidade à civilização, em admiração e cuidado em relação a ela?


Educação no sentido grego, original de paideia: o trabalho que cada um faz para sair do mundo das sombras, da caverna como ilustrado por Platão, e se dar conta de sua condição. Que condição?


Primeiro: a de que se vive na caverna, só aquele que sai se dá conta disso. Enquanto se vive na sombra, na caverna, não se tem noção de que se está aprisionado nela, de que se é oprimido. Segundo: vivemos necessariamente em um mundo de sombras - a caverna. A diferença é que aquele que sai passa a se dar conta disso, já não vive mais aprisionado como antes: ele compreende o significado de uma vida sob opressão. Por isso experimenta o mundo e a si próprio como livre. E seu retorno à caverna não possui outro sentido senão o de conhecer e reconhecer a necessidade de libertação. Libertação que não se faz por graça da Providência ou acaso, esperando acontecer: só se faz pela práxis, pelo combate diário. Essa luta adquire um significado totalmente novo, inverso à violência e coerção: o de um processo de busca, uma disposição e implicação total do sujeito à liberdade. Nesse sentido, a paideia é política, e política é paideia: ação conjunta, co-ação. A isso os gregos deram um nome: filosofia. Tem a força motriz do amor (philo), e o objetivo do saber, saber-se livre (sofia) em comunhão com os outros.


Essa é a única maneira de amar a cultura, e reconhecer nela, como diz Freud, nosso patrimônio mais autêntico, e não unicamente uma instância impositiva e defeituosa, que tornou "os homens amargos, vingativos e intratáveis". É preciso que a paideia se transforme, de mera coação, em co-ação, coração: co(r)ação.


E é em nome e necessidade urgente de uma paideia de co(r)ação, com base no amor e consciência crítica da realidade, que eu saúdo Paulo Freire, que hoje completa 98 anos. Ontem, hoje e sempre Paulo Freire: nosso "Platão brasileiro”


Claudio Pfeil


CASA VIT(R)AL

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