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  • Claudio Pfeil

POR QUE, MORALMENTE, A SOLIDARIEDADE VALE MENOS DO QUE A GENEROSIDADE, E POLITICAMENTE, MAIS?


A proposta de pensar "Por que, moralmente, a solidariedade vale menos do que a generosidade, e politicamente, mais?" - é posta em paralelo com a afirmação de Paulo Freire: "Eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade”, e reformulada nos seguintes termos: por que é preciso brigar para que a solidariedade (justiça social) se implante antes da generosidade (caridade)?


A partir da etimologia da palavra caridade, viajamos por algumas obras de arte da Renascença, Barroco e contemporaneidade, em torno de um mesmo tema conhecido como "a caridade romana", conto atribuído a Valerio Maximo, escritor romano. Vimos que tal tema foi associado à caridade como virtude cristã (conforme “Sete Obras de Misericórdia”, Caravaggio 1607), o que enseja uma reflexão sobre Filosofia Moral, com base em um de seus baluartes, Kant, para quem "a moral não precisa de forma alguma de Deus". Tratamos de compreender que, ao contrário do que se pensa comumente, moral não tem nada a ver com religião, muito menos com "ordem moral" e leis da sociedade. Também, consideramos objeções à moral kantiana apoiados em Sartre, Russell e Péguy: “O kantismo tem as mãos puras, mas ele não tem mãos”.


Encadeamos nas noções de “egoísmo”, "empatia radical", “reconhecimento do outro como outro-eu”, “interesse compartilhado”, e delas tiramos as consequências fundamentais: se, por um lado, a generosidade – em essência, antiegoísta – constitui uma virtude moral, sendo por isso mesmo, subjetivamente superior à solidariedade, por outro lado, revela-se politicamente muito menos eficaz do que esta. O que não significa que não precisemos igualmente das duas, pelo contrário. Todavia, politicamente, precisamos mais de solidariedade do que de generosidade ou caridade: é a solidariedade - isto é, todos imantados por interesses convergentes capazes de se unir e lutar por eles – que regula os seres essencialmente egoístas que somos, que faz com que não resvalemos no “estado natural” de Hobbes, na barbárie. Razão porque fazemos nossa a luta de Freire: "Eu brigo para que a justiça social (solidariedade) se implante antes da caridade (generosidade)”.


Claudio Pfeil


https://youtu.be/Ig-XUhHTzfA

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