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  • Claudio Pfeil

“THE SQUARE”: DO QUADRADO COMO MOTE AO EIXO PRINCIPAL


RESUMO DO DEBATE (parte 1):

Nosso ponto inicial à análise interpretativa de “The Square” - 2017, do sueco Ruben Östlund - foi um tríplice questionamento: quais temas explícitos e inexplícitos estão presentes, e dentre estes, qual é eixo central? Por que “O QUADRADO”? Qual sua função semântica/metafórica em relação ao eixo central?

Daí, seguimos o seguinte roteiro de investigação:

1) ANÁLISE DO TÍTULO - a dupla acepção de “square”, em inglês (“quadrado”, “praça”) e a superposição operada no filme: a obra “The Square”, atribuída à artista argentina Lola Arias, é um “square” (quadrado) superposto no “square” (praça). A respeito da autoria da obra, evocamos a seguinte polêmica: Lola Arias, artista plástica, é real, mas não é de fato a autora da obra, a qual lhe foi atribuída, segundo ela, a sua revelia, o que gerou um processo judicial por parte da artista contra o diretor.

2) SIMBOLOGIA DO QUADRADO - sua simbologia nos gregos antigos - estabilidade, ordem, perfeição, “logos” e “Kosmos”; o oposto de khaos - e na tradição cristã (sagrado). ressaltamos também a recorrência do “quadrado” na Arte (Renascentista, Moderna e Contemporânea), como também no filme, seja literalmente como quadrado, seja no enquadramento das cenas. O quadrado é um “leitmotiv” em “The Square”, que consiste, portanto, em uma obra cinematográfica de metalinguagem. A esse “leitmotiv geométrico”, adiciona-se um outro, “musical”: “Ave Maria” de Gounod, o que reforça a acepção do quadrado como elemento simbólico do sagrado, como explicitado no próprio filme: “o quadrado é um santuário”

3) O PORQUÊ DO QUADRADO? - a ideia de “quadrado” (para o diretor) e sua íntima relação com “condomínio fechado” (paralelismo com “território”, Nilton Bonder) e a partir daí, a Suécia como um “condomínio de bem-estar e igualitarismo”. Exposição de Marcio Almeida: renda per capita, IDH, saúde, educação, expectativa de vida, “felicidade” - e sua tradição em acolhimento de refugiados (em 2015, acolheu proporcionalmente o dobro da Alemanha: 162 mil, principalmente sírios, iraquianos, afegãos). Em contrapartida, ameaças ao “quadrado”: envelhecimento da população sueca, percepção de queda na qualidade dos serviços, aparecimento da população de rua, e crescimento da extrema direita. The Square como subversão da “mentalidade de condomínio”, filme “transgressor”, “imoral” (cf Alma Imoral)

4) CONFRONTAÇÃO DO POLITICAMENTE CORRETO E A PRÁTICA HUMANA (VIDA CONCRETA) – a cisão - IDEAL X REAL, RACIONAL X INSTINTIVO - que perpassa toda a filosofia ocidental de Sócrates a Espinoza. O mal-estar na civilização em Freud (1930) e seu aporte fundamental: o limite do nosso “enquadramento” reside em nós mesmos, em nossa natureza pulsional, de onde o conflito entre ENQUADRAMENTO e TRANSBORDAMENTO, em The Square.

5) NARRATIVA SATÍRICA: da etimologia à diferença entre sátira e comédia. “The Square”: sátira minimalista, enxuta, “secura sueca” (versus barroco, Fellini). A sátira da Arte Contemporânea em sua tríplice vertente: ontológica, mercadológica, epistemológica. A narrativa em “The Square”: a Arte como elemento derrisório, farsesco, não é o eixo principal.

6) EIXO PRINCIPAL DE “THE SQUARE” - a falência estrutural de uma sociedade capitalista altamente desenvolvida – e das sociedades em geral - confrontada a um “invasor” concreto irrompendo por todos os lados, ameaçando o “quadrado”. Daí o mal-estar generalizado: angústia, incomunicabilidade, melancolia, solidão. The Square, realismo social e Hopper.

Claudio Pfeil - CASA VIT(R)AL 16/7/2020

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