Buscar
  • Claudio Pfeil

THE SQUARE”: DO “TOTALMENTE INESPERADO” AO DESAFIO ESTRUTURAL

RESUMO DO SEGUNDO DEBATE:

A partir do eixo principal de “THE SQUARE” - a falência estrutural de uma sociedade capitalista altamente desenvolvida (das sociedades em geral), confrontada a um “invasor” concreto irrompendo por todos os lados, um “outro ameaçador” confrontando-a com a negação de si mesma, do “quadrado” - ressaltamos a tonalidade afetiva do “mal-estar generalizado da civilização”: medo, angústia, indiferença, incomunicabilidade, violência, solidão, melancolia. Daí, prosseguimos o seguinte itinerário:

1) ESPELHAMENTO DA CONFRONTAÇÃO: IMAGINÁRIO E PULSÃO - Christian, curador geral do Museu de Arte Contemporânea - rapaz civilizado, politicamente correto, engajado com boas intenções ideológicas, justiça, solidariedade - se vê “invadido pelo outro” (cai num golpe, é furtado), e tem que se haver com esse “invasor” concreto. Entretanto, a maneira como o protagonista vai lidar com essa invasão é fortemente influenciada pelo “imaginário” (ele não sabe quem é o invasor, mas sabe que se trata de alguém que está “fora do quadrado”) e comandada pela pulsão.

2) TRANSBORDAMENTO PULSIONAL – Ameaçado por esse “outro invasor” imaginário - morador da periferia, imigrante, criminoso – Christian, por sua vez, parte para a ameaça, intimidação. Acirra-se o dinamismo da pulsão que vai fazer Christian transbordar o quadrado, o politicamente correto, as boas intenções ideológicas, os ideais civilizatórios: ele age totalmente “fora do quadrado”, torna-se o exato oposto do que ele simboliza.

3) SÁTIRA ANTINÔMICA E HIPERBÓLICA → Quem “propõe” o quadrado (Christian) é justamente quem vai transbordá-lo. Em contrapartida, quem é tido como “outro ameaçador” (imigrante, criminoso) - fora do quadrado - é quem vai representar o quadrado e exigir a prevalência da ética: um garoto de dez anos, filho de imigrante. É movido, exclusivamente, pela ética: exige tão somente a reparação da injustiça da qual ele é vítima, mediante pedido de desculpas à sua família.

5) CUMEEEIRA – The Square é um “quadrado” em “duas águas”, tendo como cumeeira a cena em que Christian toma conhecimento (pelo celular) de um bilhete: "Você me acusou de ladrão. Desculpe-se comigo e minha família ou farei da sua vida um caos” (o significante “caos” – que para os gregos é contrário de cosmos, este ligado à simbologia do quadrado - ressaltado na cena, repetido três vezes). A vitória que Christian imaginava ter logrado sobre o “outro invasor”, chancelada por sua posição no quadrado, é posta em xeque. A ameaça irrompe no quadrado sob forma de letra. Do início do filme até então, trata-se essencialmente de um “inimigo imaginário”, um “outro fora do quadrado”; aqui, ocorre uma báscula: o “outro ameaçador”, de “inimigo imaginário” vira em "simbólico", irrompe o quadrado e nele se inscreve e se escreve como ética. Essa é a "grande explosão", o “totalmente inesperado” (que poderia servir de título ou subtítulo a The Square): a forma do quadrado é exigida justamente por quem o quadrado exclui. E o que é mais “explosivo”: esse "fora do quadrado" é um garoto de 10 anos, um excluído tanto quanto a “criança mendiga loura” que aqueles de dentro do quadrado fazem explodir num vídeo publicitário, sob argumento de que “é preciso criar polêmica” e “viralizar na internet”.

6) CHRISTIAN HIPÓCRITA? – Sim, à condição de se ressaltar que a hipocrisia de Christian não é, antes, o traço de uma personalidade individual, porém o de de um conflito humano irrevogável, que não é só dele. Não é “Christian” que é hipócrita, cada um de nós é, a sociedade é. Somos todos contra a desigualdade social, violência, preconceito, racismo, xenofobia, homofobia, transfobia; ao mesmo tempo, somos todos egoístas, violentos, preconceituosos, racistas, xenófobos, homofóbicos, transfóbicos. Todos nós nos escandalizamos com uma “criança mendiga loira explodindo” em vídeo; todos nós normalizamos crianças diariamente “explodidas” nas ruas.

7) O PORQUÊ DE NOSSA HIPOCRISIA – Somos hipócritas por que somos essencialmente maus? Não, por duas razões fundamentais. Primeiramente, não podemos viver sozinhos. Como diz Aristóteles: “O homem solitário é uma besta ou um Deus”. Precisamos uns dos outros para viver e sobreviver: somos seres políticos, não por capricho, mas por necessidade. Segundo: em razão dessa necessidade, e por temer não ter o amor do outro, de não ser aceito por ele, abdicamos do princípio de prazer para inspirar respeito e confiança aos outros. Antes de um Freud, houve um Nietzsche: “Com ajuda da moralidade do costume e da camisa-de-força social, o homem foi realmente tornado confiável”. Tornamo-nos, assim, seres híbridos - como os sátiros - misto de homem e selvagem, de quadrado e caos, ética e barbárie.

8) SÁTIRA DE NOSSA HIBRIDEZ – Por um lado, ser totalmente “enquadrado” significaria limitar absolutamente pulsão, agir sempre de acordo com o ideal, a razão (“imperativo categórico” kantiano), o que é impossível, e por conta de nosso egoísmo: o psiquismo é regido pelo princípio de prazer, o que que faz com que o enquadramento da pulsão tenha seus limites irrevogáveis. Por outro lado, ser totalmente “desenquadrado”, significaria retornar a um “estado natural” (Hobbes), dar vazão à pulsão, ao instinto, o que acarretaria selvageria, barbárie, caos. A narrativa, trilha sonora e fotografia de “The Square” são feitas dessa nossa hibridez: enquadramento/transbordamento.

9) DESAFIO ESTRUTURAL – Se, portanto, o enquadramento da pulsão tem seus limites irrevogáveis (são consubstanciais a nós), o desafio a que “The Square” nos confronta é: até onde estamos dispostos e somos capazes de tolerar a incivilidade, no outro e em nós, de forma a não sair do quadrado e resvalar na barbárie total? (cf. performance do homem selvagem na noite de gala). É um desafio estrutural: concerne nossas vidas em sociedade, nossa sobrevivência no planeta. E a tomada de consciência de Christian no final do filme é o mais essencial e promissor dos começos, verdadeira e única esperança: “tudo é uma questão de política, de distribuição de riqueza: é preciso que a sociedade faça a sua parte: não basta que eu admita que errei, me desculpe, há problemas estruturais envolvidos com que a sociedade precisa lidar”.

Claudio Pfeil - CASA VIT(R)AL 25/7/2020



5 visualizações1 comentário